As avenidas do futuro

Nacional

Bruxelas não é uma cidade especialmente agradável. Talvez a ideia de ser a capital da União Europeia não me tenha feito compreender o interesse na estátua ridiculamente pequena de uma criança a urinar água sobre um tanque. Caracas tampouco é bonita. Mas, para mim, é capaz de ser a mais bela das cidades feias. São as pessoas e não os edifícios que me conquistam a simpatia. A beleza dos bairros de Falls Road, Ardoyne e Bogside está naqueles que fizeram de Belfast e Derry capitais da resistência. É útil admirar a pomposidade parisiense? Absolutamente. Também Neruda se espantou com as enormes igrejas de Lisboa, grandes como empadões, enquanto pelas suas ruas corriam bandos miseráveis de crianças descalças. Era, então, a capital de um império decadente que se erguera à custa da colonização, da escravatura e da espoliação dos recursos roubados aos povos agrilhoados de África, América Latina e Ásia. O chileno era ainda um desconhecido poeta que fazia escala em Lisboa a caminho da Birmânia para chefiar o consulado de Rangum.

As decisões políticas europeias tomam-se nas sedes dos grandes grupos económicos e financeiros, formalizam-se em Bruxelas e em Estrasburgo e materializam-se nos bolsos vazios de quem trabalha. É mais ou menos assim. No pior dos casos, o imperialismo europeu bombardeia, directa ou indirectamente, as casas, hospitais e escolas dos líbios, sírios e ucranianos. É a barbárie humanitária e caridosa dos que, inexplicavelmente, continuam a conseguir convencer uma ingénua legião de gente que à esquerda acredita que a União Europeia é um espaço democrático. Ou que pode vir a sê-lo. O grande perigo é que, como sempre, pagamos todos. Pelos que assassinam de forma premeditada e pelos que o fazem de forma negligente.

Na capital da Bélgica, eram quatro da madrugada quando entrámos na Grand Place à procura de Karl Marx. Íamos portugueses, bascos, italianos, uma venezuelana, um porto-riquenho e um holandês. Eu engasguei-me com a cerveja quando um deles me contou que entendia que era tempo de revolucionar as definições. Que se encaixava melhor na nossa realidade o conceito de pobretariado que o de proletariado. Ali, à frente da placa que recordava a presença do autor do Manifesto do Partido Comunista, em 1847, disse-lhe: que se foda a redefinição de conceitos. Num momento em que se dá a proletarização das velhas profissões liberais – como os advogados e os arquitectos, por exemplo – agregando mais explorados às fileiras do proletariado, há quem acompanhe o capitalismo na senda de confundir.

Toni Negri é um dos heróis dos que acham que a luta contra o capitalismo é um jogo de palavras. É o palavriado. Uma nova velha classe que sempre existiu e que acha que é na reinvenção da forma que a revolução nos baterá à porta numa bonita manhã de Verão. O italiano diluiu o imperialismo – que considera ter deixado de existir – no conceito de império e não fala em classe trabalhadora mas em multidão. Curiosamente, tanto pobretariado como multidão ocultam a relação entre o que vende a sua força de trabalho e o que detém os meios de produção. É uma formulação bastante útil para esconder o que define a essência da exploração capitalista e que não estando à vista, naturalmente, se subtrai à hora de se teorizar para onde devem estar apontadas as nossas baterias.

Infelizmente, o imperialismo e o capitalismo não se compadecem com a poesia das palavras. Hugo Chávez, comandante da revolução bolivariana, não era particularmente imune a estas contradições mas costumava contar uma anedota a quem achava que chamando-se socialista às avenidas, padarias e estádios se moldava a realidade. Dizia que um dia chegou um padre espanhol a uma comunidade indígena numa sexta-feira santa e que indignado os teria proibido de comer o porco que estavam a assar. Depois, no rio, baptizou-os um por um dando-lhes nomes cristãos em vez dos nomes autóctones. Um ano depois, quando regressou, observou estupefacto que os indígenas voltavam a comer porco em dia santo. Mas os habitantes locais disseram-lhe que não se preocupasse. Antes de o assar tinham-no banhado no rio e baptizaram-no com outro nome. Já não era porco. Agora era chiguire.

Em sentido contrário aos que querem mascarar a realidade, milhares de participantes na Cimeira dos Povos, activistas das organizações e movimentos sociais da América Latina e Europa, uniram-se para condenar o imperialismo e rejeitar as agressões económicas e militares contra os povos dos dois continentes. Apesar de contradições e pontos de vista divergentes alinharam num posicionamento que de forma abrangente exige a retirada da proposta do TTIP, que protesta contra a ingerência externa em países soberanos como a Venezuela, Cuba e Equador, que se indigna com os milhares de imigrantes mortos no Mediterrâneo, vítimas do capitalismo, que recusa os programas económicos impostos pela União Europeia e FMI a vários países do Sul da Europa e à República da Irlanda.

Ainda pesa muito, e pesará durante muitos anos, o fim do socialismo no Leste da Europa. Pesará para os que resistem conscientes dessa importante derrota. Mas também pesará para os que rejeitando a herança histórica dos que forjaram os primeiros Estados operários da história da humanidade não conseguem compreender que a hegemonia da ideologia capitalista é hoje avassaladora. E não compreenderão que determinadas construções teóricas estão contaminadas e não servem o propósito do essencial que é o ganho da consciência de classe por parte dos explorados e, por conseguinte, a unidade e o fortalecimento das suas organizações. Por donde hão-de pulsar as avenidas do futuro. Então, sim, sem imperialismo nem capitalismo.