“Se passeares no adro no dia do meu enterro diz à terra que não coma as tranças ao meu cabelo”, cantam por vezes as mulheres da região de Lafões. Com uma das mais bonitas tranças que vi até hoje, dias antes de morrer, a irmã quase nonagenária da minha avó contou-me a história da deserção do meu bisavô. Acamada e ensombrada pela cegueira num lar transmontano, desdobrou a memória e falou do rapaz que andou clandestino durante meses pelas montanhas do Larouco. Não fazia ideia de quem era Lénine e do que havia sido a Conferência de Zimmerwald mas o pastor e contrabandista, que acabaria por morrer sem nunca ter visto o mar, decidia há cem anos adiar a morte evitando uma guerra que não lhe dizia nada.
Autor: Bruno Carvalho
O meu primo disse que…
Emigrante barricado com arma ameaçou matar a mulher, diz a TVI. Às vezes, nem tudo o que os portugueses fazem lá fora é bom. E nem precisamos de dar o exemplo do colonialismo, do Durão Barroso e do Duarte Lima.
Por estes dias, a propósito da Venezuela, volta a tendência para se dizer que alguém só pode falar de um acontecimento político em determinado sítio se lá se tiver estado ou se se conhecer alguém desse lugar. Se não se viveu na Venezuela nem se tem um primo na Venezuela parece que não se tem direito a opinar. Isso tem sido usado como argumento para defender que ali há uma ditadura. Porque um primo qualquer disse, claro.
O medo não passará
O nazi Mário Machado, acabado de sair da prisão por discriminação racial, coacção agravada, danos e ofensa à integridade física qualificada, difamação, ameaça e coacção a uma procuradora da República e posse ilegal de arma de fogo, acaba de acusar um dos activistas da Cova da Moura de ser criminoso. A organização fascista Nova Ordem Social com membros acusados de tráfico de droga e participação em homicídios como o do Alcindo Monteiro publicou fotografias de Jakilson Pereira e pormenores da sua vida pessoal expondo-o como eventual alvo da violência da extrema-direita e da polícia. O seu trabalho na Cova da Moura no Moinho da Juventude, a sua actividade enquanto activista anti-racista, o seu papel como rapper no combate à exclusão e a sua militância comunista não são crime. Criminosos são aqueles que querem impor em Portugal um regime que foi derrotado pelos povos através da revolução de Abril e das lutas de libertação nacional nas ex-colónias.
Pode o passado mascarar-se de futuro?
Uma vez, conheci um homem que viajou no tempo. Mergulhou na vertigem espacio-temporal que o catapultou dos anos 80 para o presente e encontrei-o numa das margens da ria de Bilbau. Entrou na máquina que o trouxe ao futuro ainda jovem e saiu com o rosto enrugado pelo tempo. Respondeu-me que era mentira. Que tinha vindo do futuro e que aterrara no passado. De uma cidade cinzenta e industrial onde a luta de classes era o motor da história, observava agora como se afogava a rebeldia nas mornas águas da cidadania responsável. Curioso, perguntei-lhe como havia viajado no tempo. Um dia, a polícia emboscou-o e metralhou-o. Moribundo, conseguiu sobreviver e viveu sequestrado durante três décadas nos cárceres espanhóis.
A poesia que arde
Agora que a poesia não alimenta escaparates e se esconde nas velhas estantes dos alfarrabistas onde se refugiam também os livros daquelas revoluções de que falam os nossos pais talvez seja tempo de alumiar a madrugada. No tempo em que a verdade se vestia de sombras, Bertolt Brecht disparava sem medo demonstrando que às vezes a poesia é de facto uma arma. O dramaturgo e poeta comunista alemão escreveu que a «arte não é um espelho para reflectir a realidade mas antes um martelo para dar-lhe forma».
A paz na mira do paramilitarismo
Há precisamente 30 anos, o que era, então, gerente da sucursal do Banco de Comercio em Valledupar recebeu uma mensagem. «Ou se vão embora ou morrem, filhos da puta, comunistas, guerrilheiros», esclarecia a missiva. Ricardo Palmera que havia estudado economia em Bogotá e que havia começado por ser assessor financeiro do governo na Caja Agraria, no departamento de Cesar, tinha de tomar a decisão mais importante da sua vida. Durante anos, comprometera-se politicamente com a União Patriótica e via agora como caíam assassinados milhares de companheiros seus num processo de paz afogado em sangue. Foi justamente em 1987, depois de uma greve camponesa na praça principal de Valledupar que tomou a decisão frente às ameaças. Diz-se que levou 30 milhões de pesos do banco e tomou o caminho de centenas de perseguidos políticos. No cimo das montanhas da Sierra Nevada de Santa Marta enterrou a sua carreira profissional de êxito e abraçou a vida guerrilheira. Tornou-se num dos mais importantes comandantes das FARC e foi mais tarde capturado e extraditado para os Estados Unidos onde todavia se encontra a cumprir uma pena de 60 anos de prisão.
A revolução tem voz de mulher
Avessas à ideia de que a guerra é coisa de homens, combateram durante mais de meio século nas selvas e montanhas da Colômbia. São milhares, representam quase metade dos integrantes da mais importante guerrilha latino-americana e lutam pela paz e pela justiça social. As combatentes das FARC-EP levam a revolução na voz, são feministas e não têm dúvidas. Não há poder que se possa tomar sem a participação das mulheres.
Na encruzilhada da paz
Cerca de 19 dias foi quanto tardaram os cerca de sete mil guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) a percorrer a pé, em veículos e embarcações os 8700 quilómetros que os separavam das 26 zonas de transição acordadas com o governo colombiano. Um formigueiro de mulheres e homens que abandonaram a selva profunda e desceram das montanhas para uma das mais difíceis batalhas da história da mais antiga e maior guerrilha da América Latina. Depois de 53 anos de conflito, as FARC estão decididas a entregar as armas e a construir ao lado da população uma Colômbia de paz e justiça social.