Autor: António Santos

A «erradicação da fome» e a fome de revolução

Estamos no ano da graça do senhor de 2016 e há 800 milhões de seres humanos a morrer de fome. É esta a principal conclusão do Relatório de Desenvolvimento Sustentável da ONU agora apresentado e que passou completamente ao lado da nossa comunicação social. Antes, porém, de prosseguirmos é mister refazer esta pergunta gasta e tantas vezes repasta nas bocas dos comunistas: como é possível que sejamos capazes de fotografar exoplanetas nos confins da imensa e opaca treva interestelar, e encontremos formas de levantar o véu que oculta o mistério da massa e a origem de todas as coisas, e consigamos reprogramar e fazer células para dobrar a própria natureza humana, e possamos tudo e tanta coisa, epigenomas, água em Marte, máquinas em asteróides… e ainda assim, em desafio a tudo isto, não sejamos, enquanto espécie, capazes de conseguir algo tão ofensivamente elementar como evitar que uma em cada oito das nossas crianças não passe fome?

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A nomeação de Dillary Crump*

Nem mesmo a revelação de que o Comité Nacional do Partido Democrata (PD) sabotou a campanha de Bernie Sanders fez o senador do Vermont retirar o apoio político que, no dia 12, entregara a Hillary Clinton. Se já todos sabíamos que as primárias democráticas foram tudo menos democráticas, a fuga de mais de dez mil emails da Comissão Nacional, prontamente atribuída por Hillary à Rússia, veio revelar os requintes anti-semitas e fundamentalistas com que a direcção daquele partido procurou denunciar as raízes judaicas de Sanders ou, pior ainda, expor o seu alegado ateísmo. «Para a minha malta baptista no Sul há uma grande diferença entre um judeu e um ateu», pode ler-se num email divulgado pela Wikileaks em que Brad Marshall, chefe das finanças do PD, pondera a estratégia de ataque a Sanders na comunicação social.

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O que o plágio diz sobre o plagiado

Recalcado, o trauma está lá há quase um século, desde que os EUA substituíram o Velho Continente como difusor cultural hegemónico no mundo. As classes dominantes europeias, muito afeitas a grandezas de primeiros lugares, tiveram de se acocorar na posição adestrada de imperialista-adjunto. Mas não sem bile: «Eles têm o dinheiro, mas nós temos a talha dourada! Eles têm o poder, mas são nossos os passaportes dos inventores e artistas emigrados!».

É um rancor antigo e verdadeiro, malgrado rebuçado quando o patrão está a ver, mas que vem à tona, em toda a sua desfaçatez, quando se trata de fazer troça das supostas incultura e estupidez dos EUA.

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Com o que sonha o Cristiano Ronaldo?

Cristiano Ronaldo não sonha, certamente, com comprar o carro ou a casa que sempre quis. Pode ficar assegurado o leitor: o sonho do  melhor jogador de futebol do mundo não é nada material. Ao contrário do que se possa achar, Cristiano Ronaldo não sonha com milhões de euros, mulheres bonitas nem ilhas privadas. Estamos em condições de afirmar com segurança que o CR7 já tem todas as copas, ligas, campeonatos, botas de ouro e bolas de ouro que poderia desejar.

Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka, sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência?

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Quem se mete com os estivadores mete-se com o país inteiro

Com a aquiescência encalistrada do governo PS, o patronato declarou Guerra Total aos trabalhadores do Porto de Lisboa. Guerra Total no sentido clássico, em que tudo vale, para a qual todos os recursos são mobilizados e que cujo alcance político é vertiginosamente ilimitado. Quando os rufias da Associação de Operadores do Porto de Lisboa respondem a uma greve com uma ameaça de despedimento colectivo, o que na realidade nos vêm dizer é que, neste país, podem fazer tudo o que lhes der na real gana.

Em directo, no telejornal, os terroristas avisaram que por cada novo dia de greve vão despedir mais trabalhadores. Como recordou o deputado ao Parlamento Europeu pelo PCP, João Ferreira, o Código do Trabalho é claro neste ponto: «É nulo o acto que implique coacção, prejuízo ou discriminação de trabalhador por motivo de adesão ou não a greve.» e «Constitui contra-ordenação muito grave o acto do empregador que implique coacção do trabalhador no sentido de não aderir a greve, ou que o prejudique ou discrimine por aderir ou não a greve». Mas os senhores que operam o nosso Porto acham que, no nosso país, estão acima da lei. O problema é que o Porto não é deles: é nosso e eles somente o operam; o País não é deles: é nosso e eles somente o exploram.

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VI Lénine, a caminho de Lisboa

Antes de morrer, em 1924, o revolucionário russo Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lénine, foi vítima de terríveis alucinações. Febril e quase paralisado, recorda a sua irmã Maria, chegou a pedir veneno a Stáline para acabar o suplício. Até aqui tudo é histórico.

Segundo o próprio, em Janeiro desse ano, o médico mandou-o apanhar um comboio para Lisboa, onde deveria ser examinado por um médico famoso. Contudo, ao chegar a Lisboa, Lénine depara-se com um mundo estranho que, dizem os jornais, é 2016. Confuso e frustrado, depois de uns dias a vaguear pela cidade, o líder comunista decide regressar à Rússia. É à espera do comboio, em Santa Apolónia, que o encontramos, humano, lúcido, intempestivo e a lutar para compreender quem é que afinal, no meio desta realidade surrealista, está mesmo a alucinar. É esta, grosso modo, a história da peça de teatro «A Última Viagem de Lénine», que a associação Não Matem o Mensageiro estreia em Outubro, no Teatro da Trindade, quando a revolução russa celebra 99 anos.

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