CDU e Bloco – Diferenças de Classe

Nacional

João Teixeira Lopes, dirigente do Bloco de Esquerda, acaba de dar à estampa um sórdido artigo sobre as diferenças entre o BE e a CDU, em que, grosso modo, ficamos a saber da coerência do primeiro e do sectarismo do segundo. Malgrado não seja meu costume dar réplica à espuma que a infantilidade deste partido vai salivando no calendário, este escrito é tão intelectualmente desonesto e reveste-se de tão torpe violência que não pode acabar sem desmentido. Mas fique mónita, em jeito de declaração de interesses, sobre a minha cor: sou militante de base do PCP e, infelizmente, não sou tão livre como os eleitos (europeus ou municipais) que o BE gosta de empoleirar antes de partirem para mais altos voos, em novas e distantes paragens no colo do PS e da Direita. Terão que desculpar-me os dirigentes do BE tão sectário comprometimento, que confio não enjoar estas linhas.

No meu partido, diz-se amiúde que só a verdade é revolucionária. É o imperativo da verdade que o João Teixeira Lopes (JTL) hipotecou, e não o ódio pelo seu partido, que inspira cada uma destas palavras, que não aspiram a ofender os militantes do BE, pelos quais nutro respeito e consideração. Infelizmente, as diferenças entre a CDU e o Bloco de Esquerda não são só europeias, essas pouco mais são que o resguardo passageiro da pugna eleitoral. Não. Lamento, João Teixeira Lopes, mas a verdadeira fractura, que separa irreparavelmente a CDU do Bloco de Esquerda não é europeia. É de classe. As demais, que na maré de diatribes vêm e virão, serão sempre e apenas o corolário político de diferenças entre as classes que nos pariram.

Euro

JTL estreia no perjúrio acusando a CDU de ser ambígua; de centrar confusamente a sua política no eixo da saída do Euro; de ora defender um referendo à permanência na União Económica e Monetária, ora se cindir em apelos vagos à responsabilidade. A verdade, é que nesta matéria a CDU construiu um património único de coerência que nesta candidatura estende a toda a sociedade portuguesa: Quando os actuais dirigentes do Bloco decantavam, febris, os amanhãs dourados da moeda única, a CDU opôs-se categoricamente à entrada do país no Euro e na UEM, alertando para as consequências que hoje todos conhecemos. Quando ser “europeísta” estava na moda, o BE acusava a CDU de ser retrógrado e sectário por não acreditar que a UE traria a prosperidade francesa e os salários alemães. Lembro-me até de ouvir Francisco Louçã chamar à CDU “velho do Restelo” e “nacionalista”, por ousar dizer que a erosão da soberania nacional e a destruição do aparelho produtivo levariam o país à desgraça.

A verdade é que ao contrário do BE, o PCP sempre foi claro. O Euro não foi bom para o país, tornou-nos mais dependentes e menos produtivos, fez os nossos salários divergirem da média europeia e disparou os lucros dos grandes grupos económicos. Também ao contrário do BE, dizemos claramente o que queremos: que não havendo solução no Euro, o caminho passa por criar as condições para uma saída que beneficie os trabalhadores e o povo. Não há aqui ambiguidades: se for o PS ou o PSD a liderar essa saída, ela será usada como instrumento de empobrecimento; se for guiada por um governo patriótico e de esquerda, a saída será irmã do crescimento, do emprego, dos direitos… numa palavra de Abril. Ambiguidade seria não perguntar “em que condições?” até porque essa saída poderá não ser voluntária. Não é ambíguo dizer que o país se deve preparar para a saída. Ambíguo é enfiar a cabeça na areia e não ter a coragem de sequer discutir o que fazer em relação ao Euro.

Austeridade

Depois, JTL qual Carlos Magno, auto-coroa o seu partido campeão da luta contra a austeridade, os sacrifícios e a disciplina orçamental da EU, chamando mesmo os portugueses à desobediência! Desobediência de tal ordem, que o BE desobedece à sua própria palavra. Lembro-me de ver o BE votar favoravelmente, com toda a direita, uma resolução que elogiava “o papel estratégico” das “medidas de consolidação orçamental impostas actualmente aos orçamentos nacionais”. Na mesma resolução, sob o mote do “pacto para a competitividade”, o BE elogiava o programa “Europa 2020”, um plano neoliberal de liberalizações, privatizações e destruição de direitos laborais e sociais que legitimava as medidas da austeridade que agora diz combater.

Noutra resolução aprovada no PE sobre a “viabilidade da introdução de obrigações de estabilidade”, o BE reconhece “esforços consideráveis” no combate à crise “em matéria de consolidação orçamental e reforma estrutural” pelo que é necessário que os países não desobedeçam e “continuem a respeitar os compromissos e os acordos” neste domínio. Com efeito, nesta resolução o BE apelava não à desobediência, mas à “disciplina orçamental” com consequências para os faltosos, para “prevenir o risco moral” que representaria um Portugal de pé, pelo que “os Estados-membros são obrigados a reembolsar a sua dívida na íntegra”.

Relações Internacionais

Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Ao contrário do BE, a CDU e o PCP mantem relações com forças partidárias relevantes de todo o espectro político, do socialismo à social-democracia. O que JTL não pode compreender é que, no plano das relações internacionais, a irresponsabilidade não é dialogar, comunicando as diferenças com frontalidade e no espírito da não-ingerência.

Irresponsabilidade é votar a favor da guerra na Líbia, como fez o Bloco de Esquerda, passando um cheque em branco aos senhores da guerra europeus e americanos. Irresponsabilidade (um dia esta humanidade há-de lhe chamar crime) é dar licença a que, sob pretexto humanitário se lavre um país inteiro a bombardeios, derramando a morte sobre 100 000 vidas e atirando aquele país africano para qualquer sarjeta infame, algures entre o colonialismo europeu e a idade média.

JTL gostaria que a CDU estivesse com Alexis Tsipras, lado a lado para o selfie com Hollande e Mário Soares na sua “simbólica disputa”. Mas a CDU é pouco atreita às disputas simbólicas sem conteúdo e preferíamos que JTL e o BE tivessem manifestado a sua solidariedade com o povo grego votando contra o empréstimo à Grécia, em vez de terem aprovado à sujeição do país helénico à usura da especulação e à avidez do grande capital.

Neste sentido, importa também relembrar JTL que a CDU não defende nenhum tipo de isolacionismo e está integrado (há muitos mais anos que o BE) no grupo europeu da GUE-NGL, de que João Ferreira é inclusive vice-presidente.

Convergência de esquerda

JTL termina a peroração com um apelo bipolar à convergência e uma condenação implícita dos líderes do PCP por bloquearem a união das esquerdas. Mas querido JTL, a culpa não é do Jerónimo nem do João Ferreira. Não são eles que não querem a união com o BE. A culpa é minha. Sou eu, António Santos, militante de base do Partido Comunista, trabalhador e explorado. Não quero nem posso. Não me quero unir ao JTL porque não sei por onde ele anda quando, onde eu trabalho, é preciso fazer a luta. Eu quero unir-me a uma outra esquerda, a que esteve comigo ao relento, noites sem conta, à porta da Sorefame para defender a vida dos operários. É aí que o BE é bem-vindo, para se unir a mim, para me conhecer a cara e o salário de miséria, na luta, na adversidade e na dignidade.

Se JTL quer convergência, espero vê-lo mais vezes nas reuniões do sindicato e no calor dos piquetes de greve, com a gente boa e trabalhadora da esquerda de verdade, que não está aqui com brincadeiras (nem com desportos aquáticos nem piropos) porque, afinal de contas, é das nossas vidas que estamos a falar.

Desculpe, João Teixeira Lopes, mas as nossas diferenças não são europeias, são de classe. E porque quem deixa o certo pelo incerto ou é tolo ou pouco esperto, o meu voto é na CDU.