Culsete

Nacional

A censura do lápis azul, da apreensão de livros e da perseguição de
autores (e leitores) deixou de fazer sentido neste início de milénio,
pelo menos nesta geografia que é a nossa. O cheiro a queimado das pilhas
de livros ardendo na praça pública é um anacronismo neste momento
histórico; as pilhas de livros em chamas seriam mais perigosas para o
sistema – funcionando como golpe de marketing, atraindo atenções para
títulos, autores e editoras obscuras – do que o destino de morte lenta a
que parecem condenados os títulos mais subversivos. O desaparecimento
das livrarias independentes – e a sua substituição por um assustador
nada, apenas aparentemente ocupado pelas grandes marcas livreiras,
nacionais e multinacionais – joga neste processo um papel central. A
Culsete, livraria setubalense com 40 anos de história, ponto de encontro
de livreiros, escritores, editores e leitores, encerrará brevemente as
suas portas. A cidade fica mais pobre. Portugal fica um pouco mais à
mercê da orweliana novilíngua do regime.