Do Ribeiro ambiental ao esgoto a céu aberto

Internacional / Nacional

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, vieram a público alguns especialistas instantâneos em diversas áreas: relações internacionais, geopolítica, geoestratégia, história, resolução de conflitos, estratégia militar, entre outros. E não estou a falar dos comentadores residentes nos diversos media, os tudólogos, que tanto têm opinião e sabedoria para disseminar sobre política internacional ou o melhor esquema tático do Benfica, a morte da rainha de Inglaterra ou a localização do novo aeroporto de Lisboa. Esta sabedoria, de quem veio ao mundo para nos iluminar, aos comuns mortais, é sancionada pelos jornalistas que os acompanham, sem que exerçam o seu dever de contraditório que, de tempos a tempos e dependendo dos convidados, exercem com veemência.

O mundo a preto a branco

As primeiras vítimas das guerras, sejam elas quais forem, são as populações dos países envolvidos; dessas, as mais pobres são as primeiras das primeiras. Para alguns comentadores, jornalistas e políticos, as guerras não se resolvem com diplomacia; de resto, como acaba de afirmar o secretário dos EUA, Anthony Blinken, na cimeira do Conselho de Segurança da ONU. As guerras fazem-se até não haver mais ninguém para matar ou morrer, de um lado ou outro. A coincidência do alinhamento deste tipo de discurso é, obviamente, isso mesmo, uma coincidência.

A xenofobia do bem

Desde o início da invasão russa, temos sido brindados, ao longo do tempo, com tomadas de posição de jornalistas e comentadores – deixemos para depois alguns políticos -, seja nas suas obrigações profisionais ou nas suas redes sociais pessoais, que fariam os próprios corar de vergonha há dez ou 20 anos. Fernânda Câncio, a Madame Mubarak do Diário de Notícias, com o estatuto profissional de grande repórter, acha que temos mais empatia com conflitos que sejam próximos de nós, porque, supostamente, a nossa empatia é geográfica e tem um determinado pantone para a pele, bem como uma escala de costumes. A jornalista da SIC, Irina Shev, acha que quem quer fugir da Rússia, depois de ter sido anunciada por Putin a convocatória de reservistas, deve ir para China. Só. As portas que Portugal abriu, e bem, também aos ucranianos em idade de combater que, supostamente, não poderiam abandonar o país, não serve para os russos.

A patologia ribeirinha

A minha geração sabe o que são a piadas ribeirinhas, cunhadas por Pedro Ribeiro, radialista, conhecidas por serem tão más que se tornavam boas. Estamos, porém, noutra fase e noutro Ribeiro. Luís Ribeiro é jornalista da Visão e comentador na SIC. Até ao início da guerra, foi jornalista especializado em ambiente, de acordo com a sua apresentação na página da Visão. Depois da invasão, passou a ser comentador do conflito, por ser casado com uma ucraniana. O mesmo sucedeu com Ireneu Teixeira, na CNN, mas mais tarde, talvez porque o processo de aquisição de conhecimento, alcançado por osmose, tenha sido mais lento. Voltando a Luís Ribeiro, para além de anti-comunista primário que pôde, finalmente, sair do armário, legitimado que está o discurso da extrema-direita como liberdade de expressão, acha que os russos não estavam contra a guerra, até serem chamados a combater, estavam confortáveis com o que ele considera ser um genocídio. Certamente, no Portugal fascista, Luís Ribeiro quereria os portugueses fechados neste retângulo, sem as fronteiras de França depois da Espanha de Franco, para onde fugiram bem mais de meio milhão de portugueses que, supostamente, não estavam contra a guerra, estavam apenas com medo de morrer. Esse detalhe.  Por isso defende a suspensão dos vistos para russos ou, melhor ainda, a assinatura de uma declaração a dizer que são contra a guerra. Melhor, só marcá-los com uma estrela. Este é o mesmo Luís Ribeiro que, em 2004, ganhou o prémio “Jornalismo para a Tolerância”, atribuído pelo Alto-Comissariado para as Imigrações e Minorias Étnicas.

Untermensch

Este discurso de desumanização do inimigo não é novo. A ideologia nazi defendia-o abertamente. E não, “hoje em dia” não é tudo nazismo ou fascismo. Mas o que é nazismo ou fascismo não deixa de o ser por ser “hoje em dia”. Untermensch era a palavra usada para descrever os sub-humanos. Ciganos, judeus, negros, eslavos, onde se incluem os polacos. Polacos massacrados por Stepan Bandera, neonazi ucraniano que Luís Ribeiro, num exercício que não é ignorante, é acima de tudo desonesto, tenta reabilitar. Para o jornalista, o facto de o Estado ucraniano ter integrado nas suas fileiras um batalhão composto por neonazis justifica-se por razões práticas: “têm armas e sabem lutar”. Dito de forma simples, não importa saber como é que um exército admite um regimento de neonazis, porque é que fomentou o seu armamento e a sua formação. Importa que têm armas. Fernanda Câncio também acha normal, tendo dito mesmo que, em caso de invasão por extraterrestres – sim, isso mesmo – lutaria ao lado de qualquer pessoa. A mesma Fernanda Câncio dizia, em Dezembro de 2013, quando se começava a desenhar o golpe na Ucrânia: “isto na ucrania é mto bonito,mas s é p meter + maluquinhos catolicos extremistas, racistas, machistas e homofobicos na ue, faço ja as malas” [SIC]. Passamos, por isso, do discurso que dizia, e bem, que se há nove nazis numa mesa, se um não nazi se sentar nela, passa a haver dez nazis, para o discurso de “são nazis, mas são os nossos nazis”.

Nada disto, obviamente, justifica a invasão russa, nem os ucranianos são todos nazis. A sua organização do Estado é de extrema-direita, proibiu partidos, sindicatos e movimentos. Isto é factual. Da mesma forma que é factual que nada disto torna os ucranianos, enquanto entidade coletiva, neonazis, como nada qualifica os russos, enquanto entidade coletiva, pró-Putin.

A seriedade e legitimidade

O Bruno Carvalho, amigo e camarada, que não me pediu, e ainda menos precisa que o defenda, está há meses no epicentro do conflito, que começou em 2014. Luís Ribeiro e Fernanda Câncio referem-se ao Bruno como “jornalista”, propagandista, sem credibilidade, por ser comunista. Não há outra razão que não essa. O que é muito curioso vindo destas duas pessoas. Fernanda Mubarak Câncio tem o histórico de independência que todos conhecem. Luís Ribeiro, por outro lado, o super-isento e super-sério jornalista esteve, no final de 2021, a acompanhar a Cimeira do Clima, COP26, com o patrocínio da GALP. Isso mesmo. Discutir o ambiente patrocinado por uma petrolífera é das coisas mais isenta que pode haver no mundo do jornalismo. Luís Ribeiro, assim como o clima, degradou-se. O ponto positivo é que o clima tem salvação.

2 Comments

  • Hugo Pereira

    25 Setembro, 2022 às

    Este excelente exercício subversivo que se rege pelo verbo Pensar expõe de forma sublime as incongruências da nossa mais refinada azeda nata intelectualoide que navega no verbo ao sabor do rendilhado social e no emaranhado vox populi que a antena (ou melhor, por cabo) teima em propagandear a voz do dono.
    As tropegas justificativas para peneirar as subversivas mentes que Pensam das restantes acentam num anedótico prisma do ” se não pensas como eu estás contra mim” para que não haja lugar a um possivel terceiro vox populi:
    Não ao apoio dos governos russo ou ucraniano …
    Assim ao evitarem essa terceira opinião evitasse um debate mais sério e racional de um conflito que se auto-justifica através do saneamento daqueles que se dedicam ao subversivo exercício de Pensar
    Tudo … a bem da nação!

  • Isabel Carvalho

    23 Setembro, 2022 às

    Excelente, a todos os títulos.
    O Ribeiro é, todo ele um chiqueiro.
    A Câncio, mostra, finalmente, o que é. O que sempre foi. Desprezível

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