I: interseccionalidade

Teoria

I: interseccionalidade

Interseccionalidade é a teoria idealista segundo a qual a expressão social do sujeito resulta do cruzamento, nele, de um conjunto de vectores de privilégio e opressão. É errada por considerar que a expressão social do indivíduo se resume ao somatório das características que a sociedade lê nele e por não compreender que um constructo social só adquire materialidade quando projectada sobre algo com natureza material, i.e., a ideia de negritude só se torna um vector de opressão quando projectada sobre o proletário negro.

A teoria da interseccionalidade propõe a criação de categorias autónomas para cada combinação de opressões sobrepostas. Kimberlé Crenshaw, que contribuiu decisivamente para cunhar o termo, observou como os juízes dos EUA penalizavam desproporcionalmente as mulheres negras homossexuais, apesar da existência leis que protegem respectivamente mulheres, negros e homossexuais. Crenshaw atribui o problema à falta de categorias que permitam à sociedade compreender a sobreposição hierárquica de diferentes opressões. Ou seja, se os juízes dos EUA conhecessem a categoria de «mulher negra homossexual», não julgariam os resultados dessas opressões separadamente e, por conseguinte, seriam mais justos.

Embora todos concordemos que estas formas de discriminação são reais, o que importa não é categolizar as opressões, mas derrotá-las. Nenhuma opressão é o resultado de falta de categorias, mas de interesses materiais, pelo que é um idealismo estéril crer que mudar o discurso muda a realidade. Reside aqui a grande fraqueza da interseccionalidade: nunca ataca a base social e económica das diferentes opressões. Pelo contrário, a teoria da interseccionalidade aponta a reprodução da injustiça às relações interpessoais, pelo que coloca sempre o ênfase nas experiências individuais para travar a batalha no campo das ideias e da linguagem.

Muitas vezes, os proponentes da perspectiva pós-moderna da interseccionalidade falam em «opressões estruturais», mas referem-se às crenças ideológicas sobre as quais assentam noções de poder e superioridade que causam opressão. Na realidade, quem domina a fornalha da realidade material é quem domina as mudanças da linguagem e do pensamento.

Finalmente, o problema da crença em opressões sobrepostas é que coloca os brancos acima dos negros, os homens acima das mulheres e as pessoas sem deficiência acima das pessoas com deficiência, criando uma pirâmide segundo a qual nos oprimimos uns aos outros porque algumas pessoas têm mais “privilégios” do que outras. Trata-se de uma ideia falsa e perigosa, que confunde direitos com privilégios e aliados com inimigos: quem tem privilégios são os capitalistas. Embora alguns trabalhadores tenham mais direitos do que outros, têm exactamente o mesmo interesse em alargá-los a toda a classe produtiva através da unidade e da solidariedade.

Há uma guerra pelas nossas palavras. Elas são os instrumentos com que explicamos o mundo e a história ensina-nos que só o consegue transformar à sua vontade quem o consegue explicar. Da mesma forma que os negreiros tinham o cuidado de separar os escravos em grupos que não falassem a mesma língua, o capital verte milhões em campanhas de confusão conceptual, na promoção de novas categorias, na erradicação de certos vocábulos e na substituição de umas palavras por outras, aparentemente com o mesmo sentido. Este dicionário é um breve contributo para desfazer algumas das maiores confusões semânticas, conceptuais e ideológicas dos nossos tempos.

1 Comment

  • Guilherme

    17 Junho, 2021 às

    Artigo necessário mas deixa muito por desejar, tendo em conta que o Manifesto74 é das poucas plataformas a dar voz a uma esquerda marxista que se opõe firmemente a esta tendência reacionária oriunda da ala burguesa da “justiça social”, na classe profissional-gerencial, onde esta teoria de interseccionalidade — e os seus artefactos associados, como ‘privilégio branco’, ‘descolonização’, ‘racismo estrutural’, ‘apropriação cultural’, ‘reducionismo de classe’, ‘racismo = preconceito + poder’, ‘masculinidade tóxica’, etc. — desfruta de cachê e é propagada pela restante esquerda, até por auto-proclamados marxistas que nada entendem da epistemologia materialista.

    Se é para fazer frente a esta doutrina insidiosa que corrompe o significado da esquerda e tem impactos sérios na popularidade de um projeto de esquerda e que, portanto, representa um entrave para o nosso successo político, é necessário traçar bem uma linha contra estes sabotadores que acham que a esquerda é um projeto afetivo e moral em vez de um projeto de libertação humana através do fim da sociedade de classes.

    Com efeito, a ‘desarticulação’ de classe, como afirma Tony McKenna, resulta na perda de uma possibilidade de uma crítica estrutural (e verdadeiramente radical) do capitalismo, em prol da criação de milhentas e uma identidades privadas, individualizadas e definidas sempre em termos antagonísticos.

    Sem dúvida os maiores e melhores críticos desta nova ortodoxia são os professores colegas e marxistas americanos Adolph Reed Jr e Walter Benn Michaels. Segundo Reed, a política de identidade não é só uma alternativa à política de classe; é uma política de classe, a política de esquerda do neoliberalismo. É a expressão e agência ativa de uma ordem política e uma economia moral em que as forças do mercado capitalista são tratadas como natureza inatacável.

    Um elemento integrante dessa economia moral é o deslocamento da crítica dos resultados invejosos produzidos pelo poder da classe capitalista para categorias igualmente naturalizadas de identidade atribuída que nos classificam em grupos supostamente definidos pelo que somos essencialmente, e não pelo que fazemos.

    A maioria das pessoas realmente gosta da substância do que a esquerda defende, e isso deve ser visto como um sinal muito encorajador. Mas o que elas realmente não gostam são as muitas formas de policiamento cultural enraizadas no pensamento identitário. Isto acontece porque as pessoas consideram a moralização interseccional como uma reflexão não tanto da preocupação genuína com a justiça social mas como uma exibição arrogante de superioridade cultural.

    Há aspectos internos a este fenómeno que produzem configurações atitudinais muito horrorosas mas pervasivas, definidas talvez melhor por Mark Fisher no seu ensaio de 2013, “Exiting the Vampire Castle”, onde ele compara o ambiente (agora dominante) que destrói a solidariedade e a crítica sóbria sobre a política económica, necessária para uma esquerda efetiva, a uma força vampírica que funciona à base da propagação de culpa, acusação, ostracização e castigo.

    Reduzir a questão de classe a apenas mais um “eixo de opressão” é um princípio necessário da interseccionalidade, e é logo aí que o carácter anti-marxista se revela para alguém atento. Ao perder de vista elemento essencial de classe como uma relação coletiva e estrutural com os meios de produção (há quem sugira que classe é apenas uma construção social!) perdemos a própria universalidade que classe contém em si, como um poder social no nível da existência prática, dificultando a capacidade de agir de forma unificada para transformar o carácter da sociedade na sua totalidade.

    Com efeito, a interseccionalidade é uma metáfora desajeitada concebida num esforço para descrever como as pessoas podem ser discriminadas por várias coisas simultaneamente, algo que não era novidade para ninguém, certamente nenhum socialista. A libertação das mulheres e das minorias já fazia parte do corpus teórico socialista há cento ou cento e cinquenta anos. Se lerem aqueles livros cheios de pó, irão reparar que é algo que foi claramente levado em consideração.

    Mais do que isso, não tem nada a ver com o que deveria ser a nossa preocupação principal como comunistas, que é a exploração. A nossa preocupação deve ser as necessidades materiais das massas, não os preconceitos implícitos interpessoais que podem residir casualmente em subconscientes que devemos purgar como algum tipo de inclinação pecaminosa, ou tratar em prol de grupos “marginalizados” fetichizados, que é o que a maioria dos interseccionalistas realmente defendem na prática.

    Melhor simplesmente abandonar a ontologia de opressão e lutar pelos trabalhadores.

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