Não há unidade – nem republicana, nem democrática nem ocidental

Nacional

Esta é mesmo das raras fotografias que vale mais que mil palavras. Os líderes das chamadas “democracias ocidentais” desfilaram juntos pelas ruas de Paris, unidos contra o terrorismo e em defesa da liberdade. Juntos, mas longe de toda a a gente, numa rua deserta e cercados de seguranças, porque a segurança deles termina onde começa a nossa liberdade. A fotografia não é só poderosa porque nos mostra Hollande do outro lado do espelho e a encenação por detrás das câmaras, mas é igualmente a demonstração sobrante do que eles querem dizer quando falam de liberdade de expressão: uma farsa. Afinal, a manifestação deles era como a sua liberdade, só para alguns.

Não há unidade nenhuma e o Charlie não passou por aqui. Esta é a Europa suicidada porque não podia pagar a hipoteca, a Europa das cargas policiais e dos imigrantes afogados.

É por isso que quem se sentiu genuinamente revoltado com o atentado contra o Charlie Hebdo tem a obrigação de estar estomagado, ofendido e indignado com tanta solidariedade: do colonialista Hollande, que todos os dias perpetra atentados na Líbia e no Mali, a Rajoy, que hoje mandou prender 16 activistas que lutam pelos direitos humanos dos presos políticos bascos, passando por Passos Coelho, que em Portugal se ocupa do extermínio da liberdade de ir ao médico e aprender, sem esquecer Sarkozy, que também é Charlie e põe ciganos em campos de concentração, incluindo Cameron, que defende a liberdade da polícia de choque se expressar livremente contra os manifestantes, já para não esquecer o genocida Netanyahu, que não julgava possível tamanha barbárie e mortandade como em Paris… ou Merkel, paladina dos direitos e das liberdades, nomeadamente o direito à miséria e a passar fome, o direito de ter de aceitar viver e trabalhar indignamente para sobreviver e ainda o direito a estar caladinho.

Não há unidade nenhuma e o Charlie não passou por aqui. Esta é a Europa suicidada porque não podia pagar a hipoteca, a Europa das cargas policiais, dos imigrantes afogados, dos presos políticos, do racismo, da homofobia e do fascismo. A liberdade que o capitalismo defende é só outro nome para poder de compra: quem tem mais dinheiro é mais livre que os outros. Quem ganha o salário mínimo não pode ler jornais, quem está desempregado não pode ir à ópera, quem está precário não pode dizer o que pensa, quem tem de pagar a renda não pode levantar muitas ondas e, para quem vive do seu trabalho, a democracia acaba nos portões da empresa.

Há poucos anos, quando Espanha mandou encerrar o Egin, um jornal basco de alta tiragem, e torturou barbaramente o seu director, poucas pessoas saíram à rua. Mas a culpa não foi delas: ninguém soube de nada. E é precisamente por isso que a liberdade de expressão do capitalismo é uma farsa: só sabemos o que o capitalismo quer que se saiba.