O dia em que a lua se vestiu de mulher

Internacional

Talvez pareça estranho que tenha sido a União Soviética o primeiro país a pôr uma mulher no espaço. À URSS vestiram-lhe tantas vezes a pele de lobo que se torna difícil convencer alguém que tenha sido submetido a pelo menos duas horas de Canal História na sua vida que Valentina Tereshkova, filha de operários, tenha pilotado a sonda Vostok VI, em 1963, e tenha dado 48 voltas ao nosso planeta. A terrível pátria de Lénine, cujas mulheres conquistaram o direito ao voto, ao aborto, à igualdade legal e, progressivamente, à igualdade material, foi efectivamente protagonista de alguns dos maiores feitos na luta das mulheres.

Por muito que escondam, o 8 de Março era um dos dias mais celebrados na URSS. Não se enchiam as lojas de cartazes com promoções de produtos de beleza mas enchiam-se as avenidas com a alegria e a combatividade das trabalhadoras. A esta febre consumista que não tem mais do que o objectivo de transformar as mulheres naquilo que o capitalismo quer que elas sejam – afirmativas na sua beleza e em tudo o que é superficial mas submissas ao patronato – não há lugar para a luta pelos seus direitos.

Dez anos depois da viagem de Valentina Tereshkova, em Março de 1973, o robot soviético Lunokhod 2, escreveu no solo lunar com as rodas um enorme oito. A URSS comemorou assim o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. Devido à ausência de elementos erosivos, o número desenhado pelo aparelho continua visível na superfície da Lua e assim continuará por milhares e milhares de anos. É certo que a URSS já não existe mas o oito continua lá para nos lembrar que gerações de mulheres soviéticas deram o seu melhor pelo socialismo e pelos direitos das trabalhadoras.