Paula Rego vive!

Nacional

Foi aos 87 anos que partiu Paula Rego, um dos maiores nomes da pintura portuguesa e dos mais irreverentes a nível internacional, na actualidade. A tristeza é inevitável, no entanto, também o é a gratidão sentida ao recordar os frutos desses frondosos 87 anos. Não deixou nada por fazer. Paula Rego assina um vastíssimo legado constituído por pinturas, desenhos e gravuras sem paralelo. Além do seu legado artístico, deixa-nos um precioso legado de luta.

A nossa mais querida contadora de histórias de pincel na mão presenteou-nos, ao longo de toda a vida, com o dom de pintar a verdade, mesmo quando os cenários e as figuras evocam um certo surrealismo. É imperioso que se pinte a verdade e como ninguém, foi o que fez, sempre em prol de uma arte que se recusa a ser unicamente contemplada e dos valores democráticos contra a opressão.

Entre as largas centenas de obras, todas elas dignas de louvor, o momento político que enfrentamos dita que urge lembrar, em particular, o conjunto delas que retrata uma série de abortos ilegais, dada a gravosa falta de alternativa. Nas suas telas, são mulheres as inequívocas protagonistas e todas elas emanam uma perseverança indescritível face às violências acumuladas. Os corpos sofridos e em convulsão lembram a Luísa da Calçada de Carriche e todas as mulheres que sobem calçadas neste país, ao nascer do sol e ao cair da noite. Nada como o seu traço robusto evidencia a dor das mulheres forçadas a recorrer ao aborto clandestino, sabendo que a ilegalização do aborto só é capaz de proibir que este seja feito em segurança. Se são grotescos os retratos, será porque é grotesca a repressão. Em 2019, Paula Rego desabafa, em entrevista ao Público, declarando que “parece impossível que estas batalhas tenham de ser travadas outra vez”. É esta noção de que mal podemos pestanejar e de que não há férias na conquista de direitos que edifica o mais pujante objectivo da sua arte – “obter justiça para as mulheres, pelo menos nas imagens”. A força destas imagens inspira a exigência de justiça fora delas e para todas.

O seu legado artístico e o seu legado de luta pelos direitos das mulheres são indissociáveis. A melhor homenagem que lhe podemos prestar é ter a ousadia de continuá-la. Paula Rego vive e viverá em todas as mulheres que lutam.

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