Y: youtube

Teoria

Y: Youtube

Corriam os idos de 2006 quando a revista Time convidou o público, investido digitalmente com o poder da web, a decidir democraticamente quem seria a “pessoa do ano”. Dada voz à internet, a internet falou e elegeu, com 35% dos votos, Hugo Chávez. Mas, em vez do democraticamente eleito Hugo Chávez, nesse ano, a pessoa do ano foste «TU». O florão numa janela de Youtube, num ecrã de iMac, na capa da revista, vinha acompanhado da epígrafe «Sim, tu, tu controlas a idade da informação. Bem-vindo ao teu mundo». Estava dado o mote para a democracia na era das redes sociais.

As redes sociais, e, num sentido mais vasto, a internet, criaram a poderosa ilusão do livre acesso à informação e à opinião. Libertos das agendas dos donos dos grandes grupos de comunicação social que controlam a televisão, poderíamos subscrever pequenos canais de Youtube alternativos; imunes aos vieses, parcialidade e interesses da Imprensa decadente, poderíamos receber toda a nossa informação a partir das pessoas de confiança que decidimos seguir no Twitter, no Facebook, no Instagram, no Telegram ou no Tiktok. E podia, de facto, ser assim, mas os donos da internet nunca permitirão que um Chávez seja eleito.

70% dos portugueses usam redes sociais, o dobro dos que, há uma década, o faziam. Não passa, contudo, pela cabeça de ninguém, supor que os portugueses estejam hoje mais conscientes e bem informados do que há uma década. Todas as redes sociais são empresas privadas geridas arbitrariamente pelos respectivos donos de acordo com os seus interesses políticos e económicos. Essa é a única “política” seguida verdadeiramente pelas redes sociais.

A propriedade privada das redes sociais é uma câmara de eco da democracia burguesa. Da mesma forma que a democracia fica à porta das empresas, os trabalhadores podem eleger a assembleia que faça as leis que bem entender, mas essas leis, como a própria Constituição, ficam à porta das redes sociais, que podem censurar comunistas, propagar o fascismo e violar a lei eleitoral tanto quanto queiram.

Mas a fatia de leão desta actividade censória não é explícita. A informação que recebemos nas redes sociais é controlada por algoritmos secretos. Como não temos o direito de saber com que critério nos é mostrada uma publicação e ocultada uma outra e, sobretudo, por não sabermos o que nos foi ocultado, não conhecemos a dimensão da nossa própria desinformação. De resto, estes algoritmos são tão permeáveis à desigualdade do dinheiro como os jornais e a televisão: um conteúdo não pago não consegue competir com outro pago. Ao final do dia, quem pode pagar mais chega a mais gente. Um exemplo desta prática é a “desmonetização” (cancelamento da remuneração) dos youtubers que não cumpram critérios políticos vagos como abordarem “assuntos controversos (…) relacionados com guerras, conflitos políticos, desastres naturais e tragédias, mesmo que imagens gráficas não sejam mostradas”.

As redes sociais tornaram-se demasiado importantes na formação da opinião e das ideias para poderem estar na mão de meia-dúzia de pessoas. Nenhuma sociedade será verdadeiramente democrática enquanto a democracia precisar de alugar a sala aos autocratas.

Há uma guerra pelas nossas palavras. Elas são os instrumentos com que explicamos o mundo e a história ensina-nos que só o consegue transformar à sua vontade quem o consegue explicar. Da mesma forma que os negreiros tinham o cuidado de separar os escravos em grupos que não falassem a mesma língua, o capital verte milhões em campanhas de confusão conceptual, na promoção de novas categorias, na erradicação de certos vocábulos e na substituição de umas palavras por outras, aparentemente com o mesmo sentido. Este dicionário é um breve contributo para desfazer algumas das maiores confusões semânticas, conceptuais e ideológicas dos nossos tempos.

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