Por Ahora Y para Siempre

Nacional

Há oito anos, uma prostituta parou-me no meio da rua para me perguntar se o tipo que levava estampado na t-shirt era Lénine. Essa história contei-a dezenas de vezes para ilustrar o grau de politização de uma sociedade radicalizada entre os que defendem um novo modelo social e os que se batem pela manutenção dos privilégios da oligarquia venezuelana. Ontem, numa esquina do centro de Caracas, dois homens esgrimiam argumentos numa discussão sobre se o processo bolivariano é ou não uma revolução. Uma amiga, jornalista, explicava que é um dos temas que mais incendeia e apaixona os que acabam quase sempre por terminar abraçados pelo sabor do rum.

Ali perto, na Praça Bolívar, centro nevrálgico do chavismo, dezenas de populares e soldados armados dançavam sob a batuta de um rapper. Quando gritava ‘burguesitos’, a plateia improvisada respondia com insultos. E quando gritava ‘revolución’, os punhos levantavam-se num coro de vozes sorridentes. À volta, várias barrancas de lona concentravam centenas de pessoas dispostas em filas para dar a sua assinatura pelo reconhecimento formal de Robert Serra, deputado à Assembleia Nacional, assassinado há um ano.

Nas ruas, há cada vez mais jovens soldados. O exemplo de Hugo Chávez tem atraído milhares para as filas das forças armadas bolivarianas. Enquanto me conduzia pelas ruas de Caracas, Maria, descendente de portugueses, lembrava a vez em que o comandante no seu exercício diário no palácio de Miraflores teve de ir a uma casa-de-banho atribuída aos militares que o guardavam. Zangado, saiu para reunir todas as tropas. Levantou a baínha das calças e perguntou se notavam algo de diferente. Ninguém, senão um varredor, reparou que só levava uma meia. A outra tinha-a usado para se limpar porque não havia papel higiénico. Então, ordenou que jamais houvesse um só soldado que tivesse de usar uma casa-de-banho com piores condições que a sua.

Enquanto caminhamos aponta para o chão. No cimento, centenas de inscrições lembram o dia em que morreu o ex-presidente. Milhares de pessoas vagueavam perdidas para acabar na Praça Bolívar. Ali, onde terminavam de arranjar a via pública, muitos decidiram deixar a sua mensagem no cimento ainda fresco. Agora é um caminho carregado de futuro. Como Maria e a assinatura de Hugo Chávez no seu braço esquerdo que semeia caras enjoadas nos opositores. É toda uma nova geração que se reinventa para defender a sua revolução e os direitos conquistados.

Bruno Carvalho * Jornalista, correspondente internacional na Venezuela