Ser médico no país da austeridade, por Cristiano Ribeiro

Nacional

1Iniciamos hoje a série “Ser no país da austeridade”  
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

ESTES VÍRUS QUE NOS APOQUENTAM

A culpa foi do rinovírus. (Foi?) A mortalidade dos nossos compatriotas aumentou neste Inverno do nosso descontentamento, as urgências ficaram um caos, tudo porque o tempo esteve anormalmente frio e seco, dizem. (Sim?) E… não sei mesmo se a culpa não é do Putin, que o muito frio e comunismo anda tudo ligado…

Naquela unidade de saúde, foi o corropio do pedido de consulta e a frustração de uma negativa diária. “Hoje não há médico”, ou “deixe o pedido de medicação que falta, que se vai ver”, disse-se com persistente frequência. O sistema informático é lento no seu funcionamento, tem hiatos prolongados, desespera um santo e ainda mais um prescritor afogueado de trabalho. Mas a culpa só pode ser do rinovírus.

Não fora a existência de empresas de prestação de serviços, que um dia colocam aqui um recém-licenciado ou um simpático reformado, ou um profissional estrangeiro, outro dia a cara muda, mas se assim não fora, tudo seria pior. (Seria?) Não se entende a fala, parecem pouco á vontade, mas quem não tem cão, caça com gato. É o chamado médico itinerante, prestador de serviços á hora. O preço dos medicamentos até baixou, as famílias sentem-no, e em cerca de 10% da população até baixou para zero,… quando “optaram” por não os comprar.

Poupar é o slogan. Poupa-se na despesa pública, nos vencimentos, nas horas extraordinárias, nas horas assistenciais, no número de profissionais e nos seus interesses e direitos, na oxigenoterapia, nas nebulizações, nos transportes de utentes, na esperança de vida, na qualidade de vida, nos efeitos secundários dos medicamentos, nos recobros, nas fisioterapias, nas ilusões, nas expectativas. Viver é um luxo, meus caros, uma prerrogativa que não se pode abusar ou promover.

A culpa é do rinovírus. Ou de outro vírus qualquer. O austerovírus. O incompetentovírus. O parvovírus. Vivemos em meio de cultura altamente patogénica. Deus e a luta resistente nos acudam!

*Blogger Convidado
Cristiano Ribeiro, médico