As canções folk norte-americanas funcionam como documentos históricos. Guardam a imensa e insubmissa capacidade de trazer até nós o seu contexto -guardam secas, mortes, deslocações, greves – mas também uma espécie de espaço afectivo colectivo, vivo – guardam obstinação, resistência, esperança.
Estas canções não dizem apenas do seu presente. Persistem nelas artefactos do passado e, em simultâneo, qualquer coisa ainda disponível no futuro; de voz em voz, terra em terra, são uma espécie de construção incessante de cartografia oral viva, aberta a todos os trabalhadores e apta a orientar-nos, ainda hoje, perante (e através) das complexidades do tempo, dos sistemas de organização social e da própria condição humana.
“Which Side Are You On?”, Florence Reece (1931)
Em 1931, um grupo de homens armados ao serviço do xerife local e dos donos da mina invadem a casa de Sam Reece, dirigente da National Miners Union (sindicato nacional norte-americano dos mineiros, de vínculo expresso ao ideário do Partido Comunista). Florence Reece, então com 30 anos, atravessa em sobressalto o espaço estreito da casa, momentos antes, tentando eliminar os vestígios da presença do marido – e camarada, esse vínculo maior –, e garantir a segurança das suas 7 crianças pequenas.
Sam escapara pela porta das traseiras, num sprint que não poupava o corpo moído pelo trabalho na mina e na organização dos trabalhadores em greve, sabendo que haveria de ser procurado naquela noite e que seria morto se o encontrassem.
Os homens, movidos por um frenesim abjecto, transformam a casa dos Reece num terreno de caça e revistam tudo – reviram os escassos móveis e espetam os canos das armas nos armários, na cama, até na pilha de roupa suja. Uma das meninas mais pequenas irrompe a chorar. Os homens cercam a casa e esperam a noite inteira por Sam Reece.
Quando rompe o dia e não há sinal do agitador comunista, dispersam. Florence, com o terror ainda a pesar-lhe nos dedos que se dobram em punho, rasga uma página do calendário pregado na parede da cozinha e, no verso, inscreve a raiva em canção. “Which side are you on?” (“De que lado estás?”*) será, pouco tempo depois, cantada por si e pelas filhas pequenas no auditório do sindicato, e, aí, a elas se juntará um possante coro de trabalhadores que reconhecem na canção a mesma raiva, a mesma força, o mesmo ímpeto e clareza moral que é também fonte de esperança e de vida.
A canção atravessará vozes e contextos históricos tão próximos quanto dispares, chegando até nós nesta véspera de Greve Geral.
[Estrofe 5] “My daddy was a miner / He’s now in the air and sun / He’ll be with you fellow workers / Till every battle’s won”
Florence Reece, nascida na localidade mineira de Sharps Chapel (Tennessee, EUA), em 1900, recupera a melodia de um antigo hino da igreja baptista, “Lay the Lily Low”, tecendo por entre as notas uma letra que havia começado a esboçar aquando de uma greve anterior em que o seu pai, operário mineiro, participara, era Florence ainda muito jovem.
Em 1972, a autora dirigir-se-ia aos operários mineiros, de novo em greve no seu condado de Harlan: “Não sou um mineiro, como bem sabem, mas sou o mais próximo disso que se pode ser”. O pai havia sido morto enquanto trabalhava na mina e o marido encontrava-se agora a morrer de pneumoconiose dos mineiros de carvão ou, mais coloquialmente, da doença do pulmão negro (morreria 2 anos depois).
A voz de Florence, aí com 72 anos, faz coincidir fragilidade e firmeza, carregando meio século de luta pelos direitos dos trabalhadores e outros tantos anos de lutas que lhe antecederam e que lhe seguirão. A intensidade desta curta performance é clara sobre o que está em jogo nas minas de carvão: a vida ou a morte. O verso em que se refere ao pai, “agora no ar e no sol”, marca a morte deste nas revoltas entranhas da mina, apontando para o importante legado familiar de resistência e luta de Florence, mas também de toda a classe trabalhadora, “até que cada batalha seja vencida,” como diz a letra.
[Estrofe 2] “If you go to Harlan County / There is no neutral there / You’ll either be a union man / Or a thug for J.H. Blair”
Em 1929, uma desastrosa crise económica atingia os EUA e propagava-se por todo o mundo (a excepção mais evidente seria a resoluta URSS). O produto interno bruto americano conhecia uma redução brusca, o desemprego aumentava vertiginosamente, o capitalismo ameaçava falência iminente e a democracia burguesa entrava em descrédito.
A pobreza generalizada e a extrema instabilidade social levavam a greves massificadas, à ocupação de fábricas e terras e, na década de 1930, face às nefastas consequências da Grande Depressão, a classe trabalhadora começará a sindicalizar-se em massa. Lutar-se-á colectivamente por salários dignos e melhores condições de trabalho e de vida, iniciando o que, no contexto da indústria do carvão, ficaria conhecido como o período das guerras do carvão dos anos 30.
Harlen County, no estado do Kentucky, uma localidade mineira conduzida ao desespero, será palco central destas lutas, despertando cerradas greves dos operários mineiros, convocadas e organizadas pela união sindical National Miners Union (NMU), num condado que se considerava o mais anti-trabalhista dos EUA e onde, sucessivamente, se havia barrado a organização sindical dos trabalhadores.
A Grande Depressão parecia ter deixado a descoberto o inevitável caminhar do capitalismo para a sua própria extinção e é nesse período de impulso revolucionário que se concretiza, em Harlan, o edificar da National Miners Union como importantíssima e robusta alternativa à mais estabelecida American Federation of Labor e, em particular, à United Mine Workers of America, cujas consecutivas cedências ao sistema capitalista comprometiam a luta dos trabalhadores. De laços firmes ao Partido Comunista Americano, a NMU reivindicava uma radical revolução política e social, com base na solidariedade de classe e no controlo dos meios de produção pelos trabalhadores.
Em 1931, mais de seis milhares de trabalhadores das minas de Harlan County e da vizinha Bell County, organizados na NMU, entram em greve face a duros e generalizados cortes nos salários, décadas de insalubres condições de trabalho, mortes nas minas, famílias inteiras a enfrentar pobreza extrema, num contexto em que as empresas de mineração de carvão, como a Black Mountain Coal Company, apertavam a sua corrente prática de despedimentos arbitrários e perseguições (muitas vezes conduzindo à morte) de todos os trabalhadores suspeitos de actividade sindical.
Harlan viverá, até 1939, um período de extensas e quase ininterruptas greves e confrontos violentos; de um lado, os operários mineiros e o seu sindicato, do outro, as empresas de mineração de carvão e as forças policiais, suas lacaias. A repressão será sempre proporcional à incomensurável ameaça que os trabalhadores organizados representavam para os patrões, e nenhum condado terá sido sujeito a tão sangrentas batalhas quanto Harlan.
Nesta dinâmica que transforma em carne a luta de classes, o xerife local J. H. Blair, referido na canção, alia-se abertamente aos donos da mina. Blair denuncia sistematicamente os trabalhadores como agitadores comunistas, recebe-os com violência extrema, e recruta milícias para proteger fura-greves e ameaçar os dirigentes sindicais – o ataque à casa dos Reece é um desses casos, orquestrado como tática de intimidação.
Para além da polícia local e das milícias contratadas pelos donos das minas, as tropas federais ocupam o condado mais de seis vezes durante este período – que receberia o apropriado apelido de Bloody Harlan (Harlan sangrenta) sendo, ainda hoje, difícil de precisar o número de trabalhadores mortos pelas violentíssimas cargas policiais, bombas e disparos indiscriminados.
“Em Harlan não havia neutro”, diria Florence anos mais tarde, sobre a canção, e o contexto acolheu o seu desenlace. O apoio generalizado da população aos mineiros era, pois, o apoio aos sindicatos de classe, sabendo que, na greve, como na guerra, “não existe neutralidade, tem de se estar de um lado ou do outro”.
[Estrofe 3] “They say they have to guard us / To educate their child / Their children live in luxury / Our children almost wild”
“Which side are you on?” nasce da experiência vivida, necessariamente, de classe. Os versos da canção denunciam o fosso entre trabalhadores e patrões e a repressão perpetuada por estes sobre aqueles, num poderoso apelo à união de todos os trabalhadores contra a tirania das companhias de carvão.
Ao recuperar a melodia tradicional de um hino religioso, a canção verbaliza a condição e os anseios dos operários mineiros numa linguagem profundamente enraizada na cultura particular destes trabalhadores. E assim legitimada a demanda da canção por justiça, conduz-se o ouvinte a uma compreensão aprofundada da situação política e económica enfrentada pelos trabalhadores das minas e as suas famílias.
A dura realidade do trabalho nas minas de carvão, feito ao total abandono de medidas de segurança pelos patrões, é expressa com detalhe, como reflexo directo da vida dos trabalhadores e das famílias. “As nossas crianças quase selvagens” da letra são exemplo concreto da realidade da expropriação e da fome a que eram sujeitos, e a que os salários abaixo do nível de subsistência se mostravam incapazes de dar qualquer resposta. Salários, aliás, muitas vezes reduzidos a cupões redimíveis em condição de exclusividade na loja da companhia de mineração do carvão, onde os preços praticados eram duas a três vezes superiores aos valores convencionais.
A greve dos operários mineiros em Harlan viria a consubstanciar-se numa greve geral e a canção de Florence, agora a canção de todos os trabalhadores, num dos maiores hinos do movimento trabalhista de que há registo – guia para as canções de protesto por vir. A experiência pessoal que a impele para a página do calendário de cozinha não se encerra em si mesma, é determinantemente universal – será entoada nos sindicatos e insubstituível nos piquetes de greves.
[Estrofe 1] “Come all of you poor workers / Good news to you I’ll tell / Of how that good old union / Has come in here to dwell”
“Which side are you on?” incita a organização dos trabalhadores em sindicatos de classe, evidenciando o imprescindível papel e gigante potencial transformador da organização sindical. A ideia de que só através da acção organizada poderão os trabalhadores defender os seus interesses e libertar-se das amarras da exploração, será de tal modo transversal à luta de todos os trabalhadores que a disseminação da canção por todo o país se fará de forma praticamente espontânea.
Chegará, de modo notável, a Nova Iorque pela mão de Jim Garland e Aunt Molly Jackson, que haviam participado nos piquetes de Harlan, entre 1931 e 32, e realizavam agora uma série de concertos de angariação de fundos para a greve. A canção haveria de chegar, assim, a um jovem Pete Seeger, militante do Partido Comunista Americano e, à data, parte dos Almanac Singers, ao lado de Lee Hays, Millard Lampell e do destacado Woody Guthrie. Serão estes a gravá-la, pela primeira vez, em 1941, inscrevendo-a no centro do reportório da folk norte-americana que saía de Greenwich Village, em Nova Iorque, animada por uma geração de artistas comprometidos com a recolha e composição de canções para o povo, tocadas em pequenos palcos, salões de sindicatos e piquetes de greve.
O banjo abre esta versão da canção como contraponto mais sóbrio à melodia da guitarra que o seguirá. A voz firme de Seeger conversa com a comovente força do coro no refrão. Canta-se a denúncia e instiga-se a acção, em conjunto, numa expansão da melodia inicial de Florence – uma melodia que tudo acolhe e tudo organiza, lembrando um sindicato.
Também a letra se abre a novos versos, convocando agora todos os trabalhadores organizados nos diversos pontos do país, invocando a sua luta comum. A partir desta gravação de 1941, a canção espalhar-se-ia por toda a parte e responderia a novos contextos, encarnando infindáveis interpretações ao longo das décadas. Será, no entanto, a sua expressão a solo, pela voz e banjo de Seeger, a derradeira imortalizada.
É ainda Pete Seeger que a conduz à luta contra a guerra do Vietnam nas décadas que se seguem.
Já em 1980, servirá de hino aos mineiros britânicos em luta, pela voz de Billy Bragg, que a toca em comícios e piquetes de greve, investindo-a de um ímpeto mais punk através da guitarra eléctrica e da alteração da letra. Em causa estavam os tenebrosos ataques de Margaret Thatcher aos direitos dos trabalhadores e, em particular, a ilegalização do direito à organização sindical. Ouve-se, nesta nova versão da canção: “Juntamo-nos à linha do piquete porque juntos não poderemos falhar.”
“Which side are you on?” dará título, também neste contexto, ao documentário de Ken Loach, de 1984, sobre a música e a poesia ligadas às greves dos operários das minas em Inglaterra, nesse ano.
[Estrofe 4] “Gentlemen, can you stand it? / Oh, tell me how you can / Will you be a lousy scab / Or will you be a man?”
O contexto de violentíssimos ataques e consecutivas mortes obrigou a recuos do sindicato durante a primeira parte da década de 1930, não sem antes ter pressionado determinantemente Governo e patrões, conduzindo os confrontos ao que viria a ser um desfecho mais favorável para os trabalhadores, em 1937.
Trinta e seis anos passados, em 1973, 180 operários mineiros de Harlan entram novamente em greve após a empresa de mineração do carvão, Eastover Mining Company, se recusar a reconhecer o contrato colectivo de trabalho e a negociar com o sindicato (agora a United Mine Workers of America). Contra cerrada intimidação e violência, os operários e as suas famílias reivindicavam condições de trabalho seguras e salários dignos, numa disputa histórica em que os trabalhadores abandonam o local de trabalho, comprometendo-se com uma greve que duraria 13 meses e culminaria na morte de um trabalhador à queima-roupa.
Dois anos antes, Florence, agora com 72 anos, era filmada, no contexto da preparação desta greve geral, para o documentário de Barbara Kopples, “Harlan County USA” (1976). Kopples regista a actuação de Florence no comício sindical, galvanizando os trabalhadores que viriam, no ano seguinte, a enfrentar uma significativa escalada das agressões perpetuadas pelos fura-greves, polícia e homens armados contratados pela empresa para exercer violência de forma indiscriminada com o objectivo de quebrar a greve. Mas os trabalhadores não quebram e, em Agosto de 1974, saem vitoriosos.
O documentário tem o mérito de tomar, também ele, partido, colocando-se do lado dos trabalhadores e interferindo em sua defesa, tendo tido, inclusivamente, peso na forma como foram conduzidas as negociações, vendo-se os patrões pressionados pela opinião pública, e as milícias armadas, mais inibidas de cometer actos violentos em frente às câmaras.
É a expressão de resistência colectiva que aí se sublinha, revelando o preponderante papel das mulheres na organização dos piquetes, na formação das comunidades de apoio, na logística e distribuição de alimentos, e na vigilância das estradas, como uma das mais marcantes características desta greve. À semelhança da década de 30, a paralisação geral afirma-se, não só como um conflito estritamente laboral, mas como uma luta de toda a comunidade. E também as relações de género se verão para sempre transformadas, numa região que se mostrava tradicionalmente conservadora.
Vemos Florence retornar a “Which side are you on?”, no comício gravado por Kopples, numa trémula e arrepiante versão a capella. E é imediatamente antes dessa redenção da canção que a cantautora expressa uma ideia importante: “Podemos perguntar aos fura-greves e aos homens armados de que lado estão porque também eles são trabalhadores.”
Os fura-greves (”scabs”, na canção) agem em directa oposição aos interesses da classe a que pertencem, favorecendo os interesses da classe que detém os meios de produção e contribuindo para o enfraquecimento da capacidade de negociação colectiva dos trabalhadores. Gramsci e Lukács dão-nos pistas para olhar esta traição de classe como resultado da disseminada influência da ideologia da classe dominante, isto é, da hegemonia dos valores e interesses desta classe como universais. Podemos pensar a afirmação de Florence nesse sentido.
A canção e a pergunta que coloca parecem partir do esforço de compreensão da totalidade das relações de produção e de perceber, aí, os interesses históricos do proletariado. É necessário que o trabalhador encare a sua condição, não como um fenómeno natural e facto inescapável da vida social, mas como resultado de relações históricas de exploração. E será, confrontado com estas dinâmicas concretas da luta de classes, que o fura-greves, como qualquer trabalhador, a poderá vir ainda a reconhecer (a tempo, esperemos) como expressão dos seus interesses e caminho para a sua emancipação. É preciso tomar a ida ao encontro de todos os trabalhadores como tarefa política imediata.
[Refrão] “Which side are you on?”
As canções de protesto configuram uma das mais contundentes formas de expressão da classe trabalhadora: dizem das inquietações e aspirações dos trabalhadores, fortificando os laços que nos unem, nessa experiência electrificante e galvanizadora de cantar, em conjunto, a nossa raiva, mas também a nossa esperança e experiência colectivas de resistência. A repetição da pergunta “de que lado estás?”, insistida no refrão, apresenta-se como desafio directo, instigando os trabalhadores a tomarem uma posição clara no contexto da luta de classes. Num oxímoro (que o é somente no sentido literal da palavra) que, por dividir flancos e delimitar localizações antagónicas, convoca uma união última.
A pergunta não é abstracta, existe num contexto material preciso, marcado pela repressão e pela mais profunda precariedade. Esta canção diz-nos da dureza da vida das famílias trabalhadoras, da violência com que se defrontam os trabalhadores no seu dia a dia e, em especial, das tentativas de supressão das suas justas aspirações pelo capital.
Avança, como resposta, essa mistura de necessidade absoluta e obstinação que é a ideia de que os trabalhadores podem organizar-se contra os patrões e de que é nessa luta organizada, de raízes fundas na solidariedade de classe e concretização última nos piquetes de greve, que se cultiva a vivificante esperança numa vida melhor.
Os trabalhadores das minas viam-se inteiramente despojados de direitos. Quando se organizam, ainda em número reduzido, são prontamente dispersos pelas forças policiais. Só com a sindicalização massiva e a mobilização de toda a comunidade em torno da greve, se transformam numa força impossível de reprimir e conquistam importantes vitórias.
As infindáveis lutas que se seguem – de Harlan, na década de 70, ao Portugal dos dias de hoje –, confirmam essa verdade elementar: os trabalhadores organizados possuem uma capacidade de intervenção que nenhum trabalhador isolado poderá alguma vez alcançar. Residem, nos nossos punhos, os meios para travar o avanço do pacote laboral que se encontra hoje em cima da mesa. Estar no lado dos trabalhadores na greve geral da próxima quarta-feira é declarar guerra a quem explora a nossa força de trabalho; não escolher um lado é estar alinhado com o nosso inimigo de classe.
Desenvolvendo, os trabalhadores, níveis distintos de consciência política mediante as específicas condições materiais em que existem, a preparação da greve geral exige um profundo e persistente trabalho de esclarecimento e mobilização, nos plenários e assembleias, e em cada conversa com outro trabalhador, cientes de que a consciência de classe não brota espontaneamente.
Será importante ter presente que a ausência de solidariedade de classe com que nos possamos deparar na preparação desta greve não é falha moral (individual) de determinado trabalhador ou conjunto de trabalhadores, mas resultado de enraizados mecanismos sociais e ideológicos que dificultam o reconhecimento dos nossos interesses comuns. O capitalismo tende a fragmentar a experiência dos trabalhadores, conduzindo-nos a acreditar que o que nos afecta é uma questão do foro individual; que o pacote laboral afectará outros sectores, não o nosso; que o degradar quase absoluto das condições laborais é inevitável; que a Constituição Portuguesa é obsoleta e a luta organizada, ineficaz.
Os sindicatos de classe são, aqui, peça insubstituível, e os entraves ao seu funcionamento que se avançam no pacote laboral são reminiscentes da situação de Harlan County, em 1931 e em 1973, assim como da Grã-Bretanha na década seguinte, procurando enfraquecer os instrumentos que permitiram às gerações anteriores conquistar direitos e protecção social. É também na canção de Florence e em Harlan que podemos resgatar um mapa de pertença colectiva capaz de transformar indivíduos dispersos em corpo político comum, pensando a solidariedade como prática organizada e não um sentimento espontâneo.
Será importante lembrar “Comrade: An Essay on Political Belonging” (2019), onde Jodi Dean defende “camarada” como forma específica de pertença política com base na disciplina colectiva e na luta comum, muito distante da identidade ou de uma experiência individual particular. A classe não é a soma de interesses individuais, e a solidariedade de classe não é um valor moral abstracto que precede a organização colectiva – pelo contrário, encontra nessa organização a sua génese.
As mobilizações espontâneas e movimentos horizontais não serão suficientes para produzir uma transformação política duradoura; são as estruturas organizativas permanentes, como os sindicatos de classe e o Partido, as únicas capazes de garantir uma unidade consequente e impermeável à eventual dissipação.
Ouvir estas canções é ouvir sobre o tempo em que foram construídas, num país e contexto histórico tão distante do nosso, mas é também abrirmo-nos a ouvir o que nos dizem do caminho que fizeram até nós e do que nos espera.
Ouvi-las hoje, enquanto se trabalha na preparação de uma enorme greve geral, é combustível para braços cansados e convicção para o contacto com os trabalhadores à nossa volta, dos locais de trabalho aos piquetes de greve.
Florence Reece viria a cantar “Which side are you on?” incontáveis vezes ao longo dos 50 anos que se seguiram à sua composição, em comícios, greves, convívios de trabalhadores, reuniões. Pete Seeger seguiria o mesmo caminho. E diz-se, destas duas versões em particular, que nunca terão falhado em inspirar o espírito militante e resistente entre os seus camaradas – trabalhadores dos mais variados contextos e condições de vida.
É isto que se exige dela em 2026: que nos instigue a tomar posição no próximo dia 3 e nestes dias que o antecedem. O desafio moral do refrão mantém-se tão vivo hoje como em 1931: estamos do lado dos trabalhadores ou dos patrões?
Que se escolha um lado. Que se tome Partido.
* Letra da versão original, de 1931:
“Come all of you poor workers
Good news to you I’ll tell
Of how that good old union
Has come in here to dwell
Which side are you on?
If you go to Harlan County
There is no neutral there
You’ll either be a union man
Or a thug for J.H. Blair
Which side are you on?
They say they have to guard us
To educate their child
Their children live in luxury
Our children almost wild
Which side are you on?
Gentlemen, can you stand it?
Oh, tell me how you can
Will you be a lousy scab
Or will you be a man?
Which side are you on?
My daddy was a miner
He’s now in the air and sun
He’ll be with you fellow workers
Till every battle’s won
Which side are you on?”