A culpa é do vizinho

Nacional

Está estabelecida, numa parte da sociedade, a ideia de que questionar o que quer que seja feito pelo governo no combate à pandemia é ser, na melhor das hipóteses, parvo, na pior, um negacionista da Covid-19. Considerar que esta declaração de Estado de Emergência e o que foi decidido no Conselho de Ministros não foram as melhores opções é um crime de lesa-pátria. Considerar que estamos a caminhar para a normalização do que deveria ser excecional, com Estados de Emergência atrás de Estados de Emergência, e a limitação das liberdades individuais, de associação e reunião, não é o caminho certo, parece ser um ataque vil a tudo e mais alguma coisa.

Considerar que há um exagero nas medidas securitárias numa situação que é de saúde pública, não é ser negacionista nem irresponsável, bem pelo contrário. É não alinhar num discurso acrítico que aceita tudo o que lhe é imposto. Muito menos se trata de negar a gravidade da situação, em Portugal e em todo o Mundo. Não se trata de ter um sábado estragado, de ter um fim-de-semana em que não se poderá andar na rua durante uma parte do dia. Trata-se de rejeitar que uma questão de saúde seja, supostamente, combatida, com medidas securitárias. Olhando para os números de infetados não há, até agora, nos países europeus, qualquer evidência de que o recolher obrigatório diminui o número de infeções.

A culpa do vizinho

Estas medidas do Conselho de Ministros são o governo a dizer que fez tudo o que podia – e não fez – e a transferir para os cidadãos a responsabilidade da evolução da pandemia. Está estabelecido que a culpa do avanço da pandemia é do outro. Do vizinho que fotografamos à janela e publicamos nas redes, para ser julgado no tribunal da internet; do outro, que se junta ao domingo com a família para lamber puxadores de portas. Do outro que, se se infetou, foi porque com certeza não teve cuidado; se infetou outros, mesmo sem sabermos como nem porquê, era queimá-lo na fogueira.  Os dados do governo indicam que não há infeções nos transportes públicos e apenas 3% são nas escolas e 12% no trabalho. Não deixa de ser curioso que, só no concelho de Matosinhos, haja 130 turmas em quarentena e que, de acordo com os dados do município, seja no meio escolar onde se verificam mais contágios. Dar-se-á o caso de ser uma exceção, talvez. Ao que parece, não passa pela cabeça do governo que um trabalhador que diga que foi infetado no trabalho, perde o emprego. O isolamento de Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira foi porque as pessoas daqueles concelhos são demasiado afetivas. Não é por serem concelhos onde ainda existe indústria têxtil e do calçado, altamente precarizada, com salários de miséria. É porque nessa zona as pessoas são, obviamente, irresponsáveis. Não é porque a ACT não atua, obviamente. A culpa é do outro. Está decidido que a culpa é do outro, do irresponsável, porque o outro só funciona se tiver um polícia atrás, que foi o que nos ficou de um Salazar em cada esquina. Eu não, que eu sigo as diretrizes todas. Era preciso mas era multas. E prisão, se for preciso, porque o outro é o culpado disto tudo.

E a saúde?

O Governo pretende combater a pandemia com a polícia e é uma opção que encontra suporte noutros partidos, que aprovaram este Estado de Emergência. Mas, para um leigo como eu, faria mais sentido investir no SNS, mais médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares. Chamar os privados a contribuírem para o combate à pandemia. Isabel Vaz, administradora do Grupo Luz Saúde, sabia o que estava a dizer quando afirmou que “melhor negócio do que a saúde, só o das armas“, como pode ver-se neste artigo abaixo de cão, escrito em 2014 pela jornalista Helena Peralta, no suplemento Exame da revista Visão. Tal como o negócio das armas atrai tudo o que é mosca, o da saúde não é diferente, pelo que há de haver uma série de gente bem na vida a chafurdar no lodo à custa do negócio da doença. E só assim se explica a inação do governo durante tantos meses em relação a este setor.

Empurra

Que há cidadãos que não cumprem o estipulado, parece-me evidente, até tendo em conta o crescente número de imbecis adeptos de teorias que fazem do Bill Gates comunista. Que a esmagadora maioria maioria da população cumpre as normas, parece-me igualmente evidente. Se não o cumprem, é porque não o podem fazer, porque o barco vai cheio, o metro está lotado, o comboio está à pinha e o autocarro está a abarrotar. Mas, misteriosamente, não há infeções nestes espaços. O governo pode empurrar para os cidadãos a culpa da pandemia, mas isso terá um custo dramaticamente maior. Não se combate uma doença com polícia.

PS: Na imagem que acompanha o texto, temos o gráfico apresentado no Conselho de Ministros. Se somarmos todas as parcelas do gráfico, obtemos 95%, sendo que o restante fica no asterisco, em baixo. Neste tipo de representação, não podem faltar parcelas representadas, como foi entendido pelo governo, que forneceu um novo gráfico a António Costa, exibido na entrevista que concedeu à TVI. Se a ideia era manipular, tornando a mancha amarela, respeitante aos contactos familiares, maior do que o é na verdade, então o objetivo foi conseguido.

4 Comments

  • Nuno Cabeçadas

    12 Novembro, 2020 às

    Certamente que este problema tem muitas vertentes.Uma delas é os aproveitamentos que muitos grupos querem fazer das medidas interpretando-as a seu modo. Seria o caso do Pingo Doce e não só se o governo não tivesse posto os pontos nos i..
    Seja qual for o governo uma situação destas é extremamente complexa e haverá sempre medidas que não agradem a A ou B.
    Não estou a fazer nenhum elogio ao governo que estará a errar em alguns aspectos.
    Mas não seria fácil ser governante agora.
    E não posso deixar de reconhecer que em países onde foram tomadas medidas duras de confinamento, da China à Coreia do Sul ou à Nova Zelândia, foi onde melhor se combateu a pandemia.

  • Braz

    10 Novembro, 2020 às

    Assinaria por baixo não fossem os países que implementaram recolhimentos obrigatórios mais cedo (ex: frança e bélgica) já terem começado a achatar a curva de novos infetados, ao contrário do que autor quer fazer crer quando afirma, ao arrepio da real realidade, faltarem evidências da relação entre confinamentos e a diminuição de novas infeções. Podiam evitar os trumpismos, ficam-nos mal e não precisamos deles para fazer valer os valores da liberdade e dos direitos do trabalho 😉

    • Ricardo M Santos

      11 Novembro, 2020 às

      A real realidade é que em nenhuma parte do texto é dito que o confinamento não produz resultados, diz-se que o recolher obrigatório integrado no estado de emergência não o faz. De facto, podíamos todos evitar os trumpismos de distorcer leituras para dizerem não o que querem dizer, mas o que queremos que diga 😉

  • Albano de Campos

    10 Novembro, 2020 às

    Nem preciso acrescentar + nada !

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