Autor: Irene Sá

Sequestrados e sem direitos políticos

Eduardo Gajeiro - 1° de Maio de 1974

Há cerca de duas semanas, em conversa telefónica, a minha mãe, residente num lar, manifestou que queria votar, de uma forma tão categórica que até me surpreendi, já que ela tem por hábito delegar todo o tipo de decisões para os filhos. É certo que ela nunca deixou de votar e que para isso nunca manifestou a mais mínima indecisão. Fui procurar o que havia sido decidido sobre o assunto e nada. Nada de nada.

Uns dias depois dizem-me que aos lares serão aplicadas as mesmas regras que às pessoas em confinamento obrigatório. Na página do SGMAI não há nada sobre isso mas oiço e leio algures essa confirmação. Como o prazo para requerer o voto nessas condições era entre 14 e 17, e no dia 14 não tive oportunidade de falar com a diretora do lar, falei com ela no dia 15.

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Um excesso de fraternidade

“(…) possíveis 33 mil (…) que virão de toda a parte do país e que findo o Avante partirão para toda a parte do país. Aliando a isto toda uma atmosfera de fraternidade e união.” Este é um dos argumentos com que nos podemos topar na maré de comentários que têm sido feitos em milhares de publicações, relacionadas directa, indirectamente ou mesmo alheias ao tema da realização da festa do avante!

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Da destruição de símbolos

Que diriam os antigos romanos sobre este intenso debate que agora se despertou em torno das estátuas? Eles criavam figuras de vulto de imperadores, senadores e outras figuras políticas com cabeças amovíveis. Deste modo, quando alguém caia em desgraça, morria por morte matada ou morte morrida ou era destituído, eram também descartadas as suas imagens e, admitamos, era mais fácil trocar a cabeça do que o corpo inteiro. Nada de memórias escrupulosas.

Serviu esta introdução para dizer que estátuas, antes de obras de arte, são símbolos. E que, embora o património cultural seja decretado, na realidade, ele só o é de facto quando tem relevância para a identidade colectiva de um povo. Não coincidindo muitas vezes, por excesso ou omissão o decretado com o efectivo. Ler mais

40 anos de democracia?

Não deixo de notar a subtil mensagem que, no turbilhão de aldrabices e mistificações com que temos sido brindados nos últimos dias (a somar às muitas outras aldrabices de todos os dias), no meio de opiniões ditas e parágrafos escritos é verbalizada. E que é a seguinte: a referências aos 40 anos de democracia no nosso país. A princípio pensei tratar-se de um erro de cálculo, de um arredondamento. Mas depois, e conhecendo a casta, António Barreto trouxe à luz a evidência quando afirmou que um Partido Comunista nunca tinha governado em democracia (ele que fez parte do VI governo provisório).

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PàF, PuM e Costa, o rei sol

Da figura sisuda e altiva, de homem que parece vestir a pele da cega e, digo eu para este contexto, insensível justiça, do paternalista que dizia ao povo, a quem por determinação constitucional deveria caber o poder político, entre breves e poupados sorrisos, para não ser piegas, ou que, secundado por membros do seu governo, falava de emigração como vantagem competitiva ou de desemprego como oportunidade, da pessoa que chegou a afirmar, quase sem pestanejar, “Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”, como se lhe coubesse a ele ditar os interesses de Portugal e aos que elegem coisa nenhuma, já pouco resta. Passos Coelho agora já não oferece enxadas a quem o desafia, ouve e diz “pois, pois” aparentando interesse, olha para o recibo da pensão de um homem e até simula espanto, fala de regras fiscais que determinam cortes como se não tivesse sido seu autor, abranda caminhadas e pára para ouvir as “pieguices” das pessoas anteriormente julgadas como incapazes para decidir o que convinha ao país, não encolhe os ombros, não vá a populaça achar que ele é o verdugo que os castiga e ignora, e até, causando assombro nas massas, dobra-se para beijar velhinhas num lar, exibe um crucifixo, do qual diz não se conseguir separar, e afirma que tem fé nas pessoas. Uma fé súbita que até suscitou do seu correligionário e antigo apoiante, Ângelo Correia, a piadola “nunca é tarde para se converter”.

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Breves notas sobre a campanha eleitoral

NOTA 1 – PS e PSD-CDS , à semelhança de outras campanhas, trocam acusações parvas entre si como quem joga ping pong. Evocam a Honra, a Dignidade, exigem pedidos de Desculpa, afirmam não ter medo e mandam o adversário ter juízo. Tudo para esconder as profundíssimas semelhanças políticas entre eles. De facto, para encontrar diferenças entre as votações destes três partidos é preciso uma lupa e, ainda assim, será difícil. É a alternância disfarçada de alternativa. Teria graça se não fosse a nossa vida a estar em causa.

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Ode a Odessa

Hesitei em chamar a isto uma ode. Mas que raio! Saramago escreveu evangelhos que não o eram, memoriais que não o eram, ensaios que não o eram. Porque não posso eu escrever uma ode que não o é?

Sempre que em algum lugar do mundo eclode a violência, dispara o contador de vítimas e é do interesse dos órgãos de comunicação de massas, ditos de referência, construir uma história conveniente, surgem por toda a parte, feito cogumelos, grandes especialistas na matéria que opinam com grandes certezas sobre os acontecimentos. A qualquer um causa grande espanto e admiração a desenvoltura com que algumas caras conhecidas, a quem antes nunca tínhamos escutado uma frase sobre o assunto, de repente emitirem todo um discurso elaborado onde não faltam nomes de cidades e de protagonistas.

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