Autor: Irene Sá

Um excesso de fraternidade

“(…) possíveis 33 mil (…) que virão de toda a parte do país e que findo o Avante partirão para toda a parte do país. Aliando a isto toda uma atmosfera de fraternidade e união.” Este é um dos argumentos com que nos podemos topar na maré de comentários que têm sido feitos em milhares de publicações, relacionadas directa, indirectamente ou mesmo alheias ao tema da realização da festa do avante!

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Da destruição de símbolos

Que diriam os antigos romanos sobre este intenso debate que agora se despertou em torno das estátuas? Eles criavam figuras de vulto de imperadores, senadores e outras figuras políticas com cabeças amovíveis. Deste modo, quando alguém caia em desgraça, morria por morte matada ou morte morrida ou era destituído, eram também descartadas as suas imagens e, admitamos, era mais fácil trocar a cabeça do que o corpo inteiro. Nada de memórias escrupulosas.

Serviu esta introdução para dizer que estátuas, antes de obras de arte, são símbolos. E que, embora o património cultural seja decretado, na realidade, ele só o é de facto quando tem relevância para a identidade colectiva de um povo. Não coincidindo muitas vezes, por excesso ou omissão o decretado com o efectivo. Ler mais

40 anos de democracia?

Não deixo de notar a subtil mensagem que, no turbilhão de aldrabices e mistificações com que temos sido brindados nos últimos dias (a somar às muitas outras aldrabices de todos os dias), no meio de opiniões ditas e parágrafos escritos é verbalizada. E que é a seguinte: a referências aos 40 anos de democracia no nosso país. A princípio pensei tratar-se de um erro de cálculo, de um arredondamento. Mas depois, e conhecendo a casta, António Barreto trouxe à luz a evidência quando afirmou que um Partido Comunista nunca tinha governado em democracia (ele que fez parte do VI governo provisório).

Para esta gente tão eloquente e opinativa o 25 de Abril de 1974 não fundou a democracia, o levantamento popular que se seguiu ao levantamento militar nesse mesmo dia não foi expressão da vontade do povo português, os dias e meses que se seguiram cheios de assembleias populares, manifestações massivas, resoluções com vista à melhoria das condições de vida, à restituição da dignidade e dos direitos políticos, o resgate pelo povo dos seus meios de produção, a celebração da liberdade, tudo isso não foi democrático. Para eles a democracia resume-se ao acto eleitoral e, ainda assim, só quando os resultados lhes são convenientes ou então, tentam mascarar golpes como o ocorrido na Ucrânia, e chamam-lhes revoluções. Aí sim já falam de vontade popular. Para eles, que encheram a boca de consensos, só vale a imposição. Atribuem às eleições legislativas a lógica do filme Imortais, “in the end there can be only one”.

Pouco lhes importa o que diz a Constituição da República. E até têm como seu principal espezinhador o próprio Presidente da República, aquele que disse jurar cumprir e fazer cumprir a Constituição, esse documento que diz que “A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa”. Nem se importam com a incoerência de considerarem que a democracia começa com um acto eleitoral organizado por poderes, dos quais na altura tomavam parte, emanados da própria revolução do 25 de Abril que não consideram democrática.

Cavaco cospe “o superior interesse de Portugal”sempre que se dirige aos portugueses e considera que só ele e os que o acompanham são iluminados para definir esse interesse e espezinha assim, mais uma vez, a lei fundamental quando ela diz que “O poder político pertence ao povo e é exercido nos termos da Constituição.”

Durante 48 anos foi Portugal governado por gente que tudo fazia “a bem da nação”. Até que chegou o “o dia inicial inteiro e limpo”.

Novos dias iniciais inteiros e limpos precisam-se, pouco nos importaremos com a democracia distorcida e diminuída que eles concebem, arrancaremos da barriga da terra o poder que há cerca de 41 anos e meio ao povo foi dado pelos capitães progressistas.

PàF, PuM e Costa, o rei sol

Da figura sisuda e altiva, de homem que parece vestir a pele da cega e, digo eu para este contexto, insensível justiça, do paternalista que dizia ao povo, a quem por determinação constitucional deveria caber o poder político, entre breves e poupados sorrisos, para não ser piegas, ou que, secundado por membros do seu governo, falava de emigração como vantagem competitiva ou de desemprego como oportunidade, da pessoa que chegou a afirmar, quase sem pestanejar, “Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”, como se lhe coubesse a ele ditar os interesses de Portugal e aos que elegem coisa nenhuma, já pouco resta. Passos Coelho agora já não oferece enxadas a quem o desafia, ouve e diz “pois, pois” aparentando interesse, olha para o recibo da pensão de um homem e até simula espanto, fala de regras fiscais que determinam cortes como se não tivesse sido seu autor, abranda caminhadas e pára para ouvir as “pieguices” das pessoas anteriormente julgadas como incapazes para decidir o que convinha ao país, não encolhe os ombros, não vá a populaça achar que ele é o verdugo que os castiga e ignora, e até, causando assombro nas massas, dobra-se para beijar velhinhas num lar, exibe um crucifixo, do qual diz não se conseguir separar, e afirma que tem fé nas pessoas. Uma fé súbita que até suscitou do seu correligionário e antigo apoiante, Ângelo Correia, a piadola “nunca é tarde para se converter”.

Mas Passos Coelho é orgulhoso e não pode dar, pelo menos inteiramente, o dito por não dito e lá vai dizendo que valeu a pena o sacrifício, que não se pode deitar tudo a perder e entregar o país nas mãos de outros, a coligação PàF, nome de sonoridade, no mínimo, palerma, pior seria PuM (Portugal, uma Miséria), igualmente palerma mas um pouco mais certa, é, segundo esta espécie de moderno aspirante a messias, a única que está apta a governar. Deixam no ar a ideia de melhorias vindouras, de um Portugal resiliente. Contudo, apesar dos milhares de vezes em que, de todas as partes do dito arco da governabilidade, presidente da República incluído, ouvimos sonoros apelos ao consenso, a PàF, pasme-se, quer governar sozinha, reclama a maioria absoluta dos votos, a maioria absoluta dos resultados, a maioria absoluta do poder. A fé nos portugueses resume-se à fé nos portugueses que votam PàF. E lá volta à baila a estimadíssima estabilidade governativa, algo que, aos democratíssimos olhos dos pafs, mas também de outro ocupante do tal arco, o PS, é incompatível com o tal consenso.

Bem tenta o PS disfarçar a sua sede absolutista e António Costa até vai dizendo que sabe lançar pontes e unir o país, que “um governo de maioria absoluta pelo qual o líder dos socialistas se tem batido não representaria um menor esforço de concertação”, mas não deixa de dizer, pela boca de dirigentes seus que votar CDU ou BE é como votar na direita. Curiosamente, o Livre fica de fora desta conversa. E lá voltamos nós ao doce e todavia perigoso mundo das aparências, Costa como político bonacheirão, sábio e sensato. Mas a oportuna, ou inoportuna dependendo de quem beneficia, memória mostra-nos que o Gandhi da Mouraria foi ministro, durante anos, foi odiado pelo povo, individualmente e por atacado junto com o seu governo de José Sócrates, é responsável por despedimentos, pela degradação de serviços públicos, responsável pela liquidação de direitos, responsável por cortes nos rendimentos e responsável por privatizações, e foi, até há pouco tempo, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, deste modo responsável pela degradação dos serviços municipais, sobretudo no que respeita à recolha de lixo e saneamento, responsável pelo estado das ruas da cidade capital, responsável pelo aumento das rendas municipais, responsável pelo estado do património municipal, responsável pela falta de fiscalização das actividades comerciais. António Costa é o homem que compra apoios em troca de favores, é o homem que quis ver o PCP fora dos órgãos da Área Metropolitana de Lisboa, é o homem que disse que o PCP e o BE são meros partidos de protesto, é o homem que, no dia das eleições autárquicas, disse, sem o mínimo pudor, que os presidentes das Juntas de Freguesia de Lisboa, eleitos pelo PS, eram os seus representantes nas freguesias, assim de chofre, sem se lembrar que a representação faz-se por eleição e não por nomeação, que o tempo dos poderes locais nomeados já lá vai, que é ao povo da freguesia que o presidente da Junta deve representar perante o presidente da Câmara e não o contrário. Olho para Costa e vejo-o ostentando uma farta cabeleira barroca, rechonchudo e vestido de brocados e folhos, qual iluminado do séc. XVIII, qual rei sol. A campanha do PS é Costa, Costa, Costa, mas isso o jornal Expresso não consegue ver.

Temem os mui responsáveis, sérios, preocupados e detentores da credencial, passada pela divina entidade do capital, que os atesta como aptos a governar, não a incapacidade para se entenderem nas mui responsáveis, sérias e preocupadas opções políticas que pretendem para o país, mas a reacção dos piegas, alvos de fé mas inaptos para definir os interesses do país. Já o duro Ulrich nos veio dizer que o que é preciso é estabilidade, receia que um governo com todo o arco do poder dentro dele deixe demasiada gente de fora, que quando chegue a hora do “aguenta, aguenta” essa gente olhe à sua volta e veja quem são os únicos que estão com ela do lado de fora. O capital teme que os “líderes da oposição” sejam os comunistas, que o ciclo do ora-agora-governo-eu-ora-agora-governas-tu seja rompido.

Breves notas sobre a campanha eleitoral


NOTA 1 – PS e PSD-CDS , à semelhança de outras campanhas, trocam acusações parvas entre si como quem joga ping pong. Evocam a Honra, a Dignidade, exigem pedidos de Desculpa, afirmam não ter medo e mandam o adversário ter juízo. Tudo para esconder as profundíssimas semelhanças políticas entre eles. De facto, para encontrar diferenças entre as votações destes três partidos é preciso uma lupa e, ainda assim, será difícil. É a alternância disfarçada de alternativa. Teria graça se não fosse a nossa vida a estar em causa.

NOTA 2 – Alguns jornalistas têm dito que não se tem falado de questões europeias e apenas de política nacional. Das duas uma, ou tomam a imbecilidade da campanha feita pelos partidos da troika nacional como o todo da campanha eleitoral ou pretendem branquear o efeito devastador das medidas impostas pela troika – que já agora, só para lembrar, é constituída pelo Banco Central Europeu, pela União Europeia e pelo FMI – e aplicadas cegamente pelo governo do PSD e do CDS. Mais: foi à conta de sermos os bons alunos da União Europeia que desmantelámos todo o nosso tecido produtivo e nos rendemos ao papel de país fornecedor de serviços e mão-de-obra barata que nos fora destinado. Falar do drama que o nosso país está a viver é falar de políticas europeias.

NOTA 3 – O PS tem insistido na tecla do voto útil como se de eleições legislativas se tratasse. Votar no PS só é útil para o grande patronato, para os demais antes fosse inútil. Votar no PS é dar uma marretada no próprio pé. Mas esta confusão é propositada e faz parte da sua estratégia.

Esclareça-se: As eleições são feitas através do método de Hondt, os deputados são escolhidos em função da proporcionalidade (um pouco deturpada) dos votos.

NOTA 4 – PS, PSD, CDS e BE têm levado a passear nas suas campanhas, os ditos candidatos à presidência do Conselho Europeu, Schulz, Juncker e Tsipras respectivamente. É mais uma falta de respeito ao povo português. É querer iludir, sedimentar a ideia já referida na nota anterior: levar a crer que do Parlamento Europeu sairá a Comissão Europeia. É contribuir para a bipolarização das eleições, para a alternância. E o BE faz o seu jeitinho.

Esclareça-se: o Presidente da Comissão Europeia é nomeado pelo Conselho Europeu (constituído pelos chefes de estado ou de governo dos países membros). O parlamento aprova ou veta a nomeação.

NOTA 5 – O Livre, do alto da sua arrogância, e pela boca de Rui Tavares afirmou que era a única candidatura que tem um programa eleitoral para o PE. Falso. O PCP apresentou uma declaração programática e a CDU definiu 6 opções fundamentais para uma política patriótica e de esquerda.

Não deixa de ser irónico que aquele que entrou em ruptura com o programa que o elegeu, no mandato que agora termina, manteve-se no cargo e até mudou de grupo político, venha vangloriar-se de ter um programa.

NOTA 6 – Segundo percebi, os apoiantes do Livre têm enquadramento estatutário. São uma espécie de membros menos comprometidos com direito a voto no que respeita à eleição de cargos, mas não têm direito a votar documentos. Ora, isto significa, em última análise, que os eleitos podem estar em desacordo com os documentos.

NOTA 7 – O mesmo Rui Tavares refere que a desunião da esquerda se deve aos seus eleitos serem indicados pelas direcções partidárias. Para além da obsessão com o institucionalismo e os cargos eleitos, Rui Tavares arroga-se o direito de falar em nome dos militantes dos partidos aos quais não pertence.

Também é curioso como cada um que fala na desunião da esquerda resolve fazer um partido novo.

NOTA 8 – Não te enganes, vota CDU.

Ode a Odessa

Hesitei em chamar a isto uma ode. Mas que raio! Saramago escreveu evangelhos que não o eram, memoriais que não o eram, ensaios que não o eram. Porque não posso eu escrever uma ode que não o é?

Sempre que em algum lugar do mundo eclode a violência, dispara o contador de vítimas e é do interesse dos órgãos de comunicação de massas, ditos de referência, construir uma história conveniente, surgem por toda a parte, feito cogumelos, grandes especialistas na matéria que opinam com grandes certezas sobre os acontecimentos. A qualquer um causa grande espanto e admiração a desenvoltura com que algumas caras conhecidas, a quem antes nunca tínhamos escutado uma frase sobre o assunto, de repente emitirem todo um discurso elaborado onde não faltam nomes de cidades e de protagonistas.

Não admira que, em boa-fé, se tome o que dizem por verdade, até porque parece haver coerência entre o que uns e outros dizem. Como não sou pessoa de fé e já vivi situações em que comprovo que as certezas mediatizadas não passam de conversa fiada, faço como o Casimiro da canção, tenho muito cuidado com as imitações.

Eu, não especialista, me confesso. Quero escrever sobre o que se passa na Ucrânia mas não sou profunda conhecedora da história, não sei de cor o perímetro do país, há cidades de que ouvi falar pela primeira vez nos últimos meses e que nem sei exactamente como é que os seus nomes devem ser pronunciados. Mas tenho a meu favor o materialismo histórico e dialético.

Quero escrever sobre isto porque abate-se sobre mim um pesado manto de impotência que desejo romper. Tomar consciência da criminosa cumplicidade de uma parte significativa dos media e nada fazer provoca-me verdadeiro mal-estar físico. Tenho úlceras no estômago porque não consigo denunciar, de forma audível para todos, o que se passa na Palestina, no Sahara Ocidental, na Líbia, na Síria, na Venezuela, e agora, na Ucrânia. Nazim Hikmet, o poeta turco, dizia ao médico da prisão que a sua angina de peito não se devia à nicotina, nem à prisão, nem à arteriosclerose, era por causa dos males dos povos. A mim, esses males, alojam-se-me no estômago.

É este o mesmo Hikmet que escreveu:

“Das canções de embalar que as mães cantam
Até às notícias lidas pelo locutor
Vencer a mentira que percorre o mundo
No coração, no livro, na rua.
Que felicidade enorme a de compreender
Compreender o que passa e o que chega.”

E noutro lado do mundo Brecht escreveu:

“As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca.”

Ainda que por egoísmo sanitário, mas por enfermidade altruísta, quero escrever sobre Odessa.

No turbilhão de “notícias” surreais sobre o massacre retenho três constantes: a fragmentação da informação – um incêndio, mortos, conflito – sem relação entre si; a troca entre as vítimas e os carrascos; a distinção entre ucranianos e pró-russos (porque não todos ucranianos? Ou porque não uns pró-UE e outros ucranianos?)

Para esta última, João Alferes Gonçalves, avança, num brilhante artigo, uma explicação:

“Pessoalmente, acredito que há mais órfãos da União Soviética nas redacções dos media do que no Partido Comunista Português. A maior parte dos autores de comentários que se referem ao governo russo actual ainda não conseguiram superar os reflexos condicionados anticomunistas e tendem a identificar Putin com o poder soviético, desaparecido há um quarto de século. Esquecem, ou ignoram, que Putin foi escolhido para suceder a Yeltsin, quando esta marioneta deixou de ser útil, e que o mais firme e consistente adversário de Putin na Rússia é o partido comunista.” 

E di-lo a propósito de uma aberração publicada pelo Correio da Manhã que, entre outras pérolas, afirma peremptoriamente: “incêndio foi causado por milícias pró-russas fortemente armadas” e de um editorial do Público que tem por título: “Nas malhas da guerra civil ucraniana”.

José Goulão refere mesmo que se trata de uma limpeza étnica. Diz ele:

“Em terminologia ocidental, aquilo que é escumalha para os ucranianos puros, fascistas e governantes, são os “pró-russos”, os “separatistas”, palavras recitadas como se fossem insultos. Quase ninguém ousa pronunciar – há dignas e honrosas excepções – os termos que qualificam esses resistentes: antifascistas, federalistas, pessoas que não querem ser cidadãos de segunda no seu país por falarem uma outra língua e terem eventualmente uma religião diferente da seguida pela elite de Kiev.”

Diz ainda que:

“A coberto dela, os Estados Unidos e a NATO continuam a reforçar o cerco junto às fronteiras europeias da Rússia, fazendo da Ucrânia um membro informal mas efectivo da Aliança Atlântica.”

 Não é de espantar portanto que John McCain tenha dito a uma televisão ucraniana que a proposta apresentada ao senado por Republicanos, de uma ajuda militar à Ucrânia, no valor de 100 milhões de dólares, será certamente aprovada. Mas o que lemos e ouvimos nos media dominantes é apenas que os russos têm estacionados 40 mil soldados junto às fronteiras com a Ucrânia e que há soldados russos infiltrados nos grupos “rebeldes”. Não nos dizem que agentes da CIA e do FBI aconselham os golpistas de Kiev, nem que Jay Carney , porta-voz da Casa Branca, confirmou a visita do director da CIA, John Brennan, à Ucrânia e a sua reunião com o “governo interino”, nem que frequentemente se ouvem vozes norte-americanas entre as milícias pró-Maiden, nem que os tumultos que originaram o golpe de estado foram provocados por “manifestantes” a soldo (e que vieram depois reclamar o quinhão que lhes tinham prometido), nem que desde a primeira hora, em que o rastilho da divisão foi aceso pela mão da UE e dos EUA, aqueles que criticaram e se opuseram aos manifestantes da praça Maiden foram violentamente atacados, nem que foram ocupadas e destruídas sedes do Partido Comunista e torturados dirigentes seus (que convém lembrar, eram também oposição ao governo de Ianukovich). Os jornais provavelmente não dirão que hoje mesmo foram banidos os comunistas do Parlamento por condenarem as acções do governo e exigirem um inquérito sobre o massacre de Odessa. Nos jornais já foi esquecido que os mortos durante os protestos em Kiev foram provocados por snipers contratados pelos golpistas. E também esqueceram que as negociações foram recusadas pela dita “oposição”, incluindo a convocação de eleições antecipadas e a cedência a todas as reivindicações iniciais. O que estava em causa era a desestabilização do país.

Para além da provocação e tentativa de isolamento da Rússia e para além da limpeza étnica, há um outro objectivo para o incremento da guerra. Poucos dias a seguir ao golpe, o governo interino faz um acordo com o FMI. 18 mil milhões de dólares mais 8 mil milhões dos EUA e 8 mil milhões da UE de empréstimo à Ucrânia. Estes gerarão juros agiotas que os ucranianos dura e longamente terão de pagar. Havendo conflito armado as despesas serão gigantescas. É o velho negócio da guerra associado ao, tão em voga, negócio da dívida. Um negócio que, segundo o documentário Dividocracia, intensifica-se cada vez mais como nova forma de colonialismo. Os estados ficam dependentes, perdem soberania, deixam de poder emancipar-se.

A história não se repete, mas os acontecimentos assemelham-se. O que está a passar hoje na Ucrânia tem muito de ascensão e clima de guerra nazi. Tal como hoje na Ucrânia, também na Alemanha, em 1933, os comunistas foram banidos do Reischtag. Foram presos em massa. Depois foram os outros. Tal como no dia 2 de Maio, foi prática dos nazis durante a guerra, nos territórios da União Soviética ocupada (incluindo a Ucrânia) queimarem edifícios com centenas de pessoas dentro. As imagens e os relatos do massacre de Odessa lembraram-me cenas do filme soviético de 1985, Vêm e Vê (Idi i smotri), um brutal retrato da Bielorússia durante a ocupação alemã.

Enquanto eram queimadas vivas quase meia centena de pessoas, estava a Portugal o homem que se diz ser o mais feliz do mundo, o monge budista Matthieu Ricard. Veio para realizar duas conferências (uma em Lisboa e outra no Porto) promovidas pela Coca-Cola e sob o tema “Altruísmo e Felicidade”. É uma pena não ter ido assistir. Parece-me uma impossibilidade que neste mundo se possa ser altruísta e ao mesmo tempo feliz.

“Sente a tristeza do ramo que murcha,
do astro que se extingue,
do animal ferido que agoniza,
mas acima de tudo
Sente a tristeza e a dor das pessoas.”

Abril é muito mais que liberdade

Todos os anos, em Abril, aqueles que com as suas mãos escrevem e assinam despachos, Decretos-Lei, Projectos-lei, ordens de serviço, portarias, artigos de opinião e memorandos repletos de insultos aos trabalhadores, aos reformados e pensionistas, aos estudantes e, em geral, ao povo português, enchem a boca com a palavra liberdade como se fossem pipocas a estalar e lá fazem a festa da mistificação, da deturpação e das omissões sobre o fascismo, sobre a revolução e sobre a contra-revolução. Os organizadores da gala deste ano superaram-se, só lhes faltou mesmo converter o fascismo em sinónimo de tempo em que a televisão era a preto e branco. A acreditar nesta gente, uma das grandes conquistas do 25 de Abril foi o consumo de coca-cola e até dá ideia que na origem golpe militar está a vontade de os namorados andarem livremente de mão dada. Liberdade sexual q.b., liberdade de expressão q.b. e sufrágio universal: é isto que dizem que celebramos anualmente.

A coisa chegou ao ponto em que tive de reler o programa do MFA, a carta constitucional que vigorou, ou que deveria ter vigorado, até à aprovação da Constituição. Respirei fundo. Já temia que tivesse imaginado, mas não. Lá estava:


“6 – O Governo Provisório lançará os fundamentos de:
a) Uma nova política económica, posta ao serviço do Povo Português, em particular das camadas da população até agora mais desfavorecidas, tendo como preocupação imediata a luta contra a inflação e a alta excessiva do custo de vida, o que necessariamente implicará uma estratégia antimonopolista;
b) Uma nova política social que, em todos os domínios, terá essencialmente como objectivo a defesa dos interesses das classes trabalhadoras e o aumento progressivo, mas acelerado, da qualidade da vida de todos os Portugueses.”

Pois. A revolução de 25 de Abril, tal como o Miguel Tiago aqui já expôs, não é a celebração do que temos hoje. Essa é a celebração do golpe contra-revolucionário do 25 de Novembro, a celebração de Vasco Lourenço, de Eanes, de Mário Soares, de todos os que tiveram o vergonhoso papel de destruir o processo, como dizia a proclamação do 25 de Abril, de restituição ao povo “dos seus legítimos e legais poderes” e a celebração daqueles que com isto, particularmente, beneficiaram.

Embora a verdade histórica tenha sido já demonstrada até à exaustão, persiste-se na tese de que o 25 de Novembro é um aprofundamento dos princípios do 25 de Abril e que os comunistas é que foram impedidos de levar adiante um golpe que pretendia instituir um regime totalitário. Há até quem queira colocar esta data no calendário das comemorações oficiais da república. Os mais desavisados ainda pensarão que os portugueses voltaram em massa a sair à rua em Novembro, com a flor da época, para comemorar o falhanço dos tenebrosos comunistas. Esta mentira propagou-se sem necessitar de prova e negando todas as evidências. Para sustentar o absurdo bastou diabolizar o compromisso dos comunistas para com a própria revolução.

A verdade não consegue levantar a voz, e apesar da dita liberdade de expressão, não há igualdade no acesso aos meios. A verdade fica abafada pelos altifalantes da mentira. É a prova de que não há liberdades sem garantias.

Sempre que oiço essas bocas empipocadas falarem da liberdade e do 25 de Abril lembro-me da canção do Sérgio Godinho,

“Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
a habitação
a saúde, a educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir”

A liberdade é a de respirar fundo e saber que dormiremos descansados debaixo de um tecto garantido, é a de poder saciar a fome, a de ter futuro, a de saber que se me doer um dente poderei trata-lo, é a de, no final do mês ter o suficiente para viver e disfrutar da vida, é a de decidir colectivamente o que a todos diz respeito. E é também a de falar. Mas a de falar também no meu local de trabalho e de poder reclamar melhores condições sem ser despedida, a de poder criticar o patrão sem medo, e de poder fazer greve sem retaliações.

A liberdade de Abril não é apenas liberdade. É dignidade, é igualdade, é solidariedade. É um conjunto de valores cujas definições se intricam umas nas outras e não se podem desembaraçar. Mas Abril não é apenas um conjunto de valores. É a sua humanização convertida em direitos. E também não são apenas direitos declarados. É a criação de meios que os garantam. E é também o poder para os manter e aprofundar.

Nos anos de 1974 e 75 quem temia o poder popular mascarava o seu receio com a tese de que “o poder não pode cair na rua”, como se o poder fosse uma jarra de cristal que corria o risco de se estatelar ou de ser levado por um qualquer ladrão de poder no meio da rua. O golpe do 25 de Novembro não conseguiu alcançar todos os seus objectivos, como também já o confirmaram os seus promotores. O PCP não foi ilegalizado nem a Assembleia Constituinte foi dissolvida e os seus trabalhos anulados. A Constituição foi aprovada, entrou em vigor e institui que o poder político pertence ao povo. Há quem faça de tudo para que isto seja esquecido e nunca cumprido, são os que fizeram e celebram Novembro.