Autor: Ivo Rafael Silva

Uma UE a brincar com a saúde dos cidadãos

Toda a estratégia de aquisição centralizada das vacinas foi, como já todos percebemos, um autêntico desastre. Em face das críticas públicas de alguns chefes de estado, a própria comissão não teve como não assumir publicamente algumas das falhas. A extrema lentidão da Agência Europeia do Medicamento no que toca à aprovação/autorização de vacinas, facto que alguns tomaram de forma falaciosa por «precaução» e «exigência» da autoridade, parece ter sido afinal uma mistura de burocratismo com «contemporização política». No meio disto tudo, como sempre, houve os que saíram a perder e os que saíram a ganhar. Entre a população e as farmacêuticas, entre fomentar um serviço e alimentar o sistema, a estratégia da UE assentou no lado em que sempre esteve e que corresponde à sua natureza federalista e capitalista. Estranho seria que a UE montasse uma estratégia desinteressada de franco serviço público, e isso, como se vê, nem debaixo da realidade trágica de uma pandemia.

Ler mais

O Polígrafo Mente

E de forma descarada. Numa publicação de alegado «fact-checking», assinada pelo aferidor da verdade de serviço Rui Oliveira Costa, foi imputada a João Ferreira uma declaração segundo a qual o candidato apoiado pelo PCP «não defende a saída de Portugal do Euro». Nada mais falso, pela simples razão de que não foi isso que João Ferreira disse. Ora, o que João Ferreira disse ontem, no debate com Ana Gomes, cujo vídeo está aí em toda a parte para ser visto e revisto por qualquer pessoa, é que «não defende a saída de Portugal da União Europeia». Contudo, e como se isto não bastasse, o texto tem determinados «requintes» que importa aqui salientar. É que não se trata só da propagação de um conteúdo falso, de uma atribuição grave de declarações falsas, mas de toda uma redacção de texto que visa sustentar a mentira de forma confusa e manipuladora.

Ler mais

O estranho caso do jornalismo-comentador

Tem grassado crescentemente uma certa “estirpe” nas nossas televisões, rádios e jornais, um subtipo específico de comentadores que deve merecer toda a nossa atenção. Não falamos de óbvios militantes assumidos deste ou daquele partido, nem sequer daqueles que sempre foram comentadores, ainda que nada o pudesse ou devesse em algum momento justificar. Referimo-nos a uma moda relativamente recente, talvez mais perigosa, sub-reptícia, mas cada vez mais incisiva e presente. Referimo-nos a jornalistas, pivots, repórteres, “polígrafistas”, que, de vez em quando, saltam de uma cadeira do estúdio para outra cadeira do mesmo estúdio, mas agora para assumir o papel de “comentador”. Regra geral, é quando acontece esse momento televisivo «mágico», mas pleno de embaraço e constrangimento público, em que o entrevistador trata o entrevistado e seu colega por “tu”, estendendo a passadeira da relevância a quem dele em nada se distingue.

Ler mais

Mas qual é o espanto com Rui Rio mesmo?

A falta de memória pode explicar em parte. O propósito propagandístico de querer aligeirar o caso, tratando-o como uma «pequena falha» de um «democrata sem papas na língua» também. Mas falta de memória e vontade de branquear tendências e tiques fascistas é coisa que não medra neste espaço.

Do leque de acções abusivas de Rui Rio enquanto presidente da Câmara Municipal do Porto, vem-nos à memória a retirada atrevida de cartazes de propaganda partidária e sindical. Claro que, na altura, após a devida queixa do PCP, a CNE agiu em conformidade passando o devido e humilhante raspanete a Rui Rio, obrigando-o à reposição dos cartazes. Refrearam-se dessa forma os ímpetos mandões de quem nunca deu mostras de saber conviver bem com quem se lhe opusesse, mas a praxis e a postura foram sempre na mesmíssima toada.

Ler mais

Os Alegados «Malucos» do Sistema

São geralmente desculpabilizados sob o rótulo de «malucos do sistema». Presidentes demasiado sonoros para os ouvidos finos de certas direitas liberalóides, como Trump, Bolsonaro, Orban ou outras variações mais caseiras e que vemos por exemplo em determinados municípios e regiões autónomas portuguesas, são apenas e só tidos por casuais e isolados «malucos do sistema». O que preconizam, o que fazem, o sistema que servem e que lhes deu poder está absolutamente certo, imaculado e não tem culpa alguma de ser «pai» do «maluco». Caídos do céu, sem passarem pelo crivo da «meritocracia capitalista», estes «malucos», se apareceram, é por culpa de qualquer «esquerda» irresponsável que os antecedeu. Porque eles são só «malucos», é azar, e o «elevador» não tem nada a ver com isso, permanece intocável e o melhor dos mundos. Ainda que não.

Ler mais

Portugal e a Tragédia Brasileira: O Grande Silêncio

Já ninguém se lembra da presença ufana e folclórica de Marcelo na tomada de posse do «irmão» Bolsonaro. Nem dos elogios apaixonados à forma tão «prestigiante e afável» como Portugal fora recebido por aquele tão recomendável leque de governantes. Foi bom estar ali, dizia Marcelo, e acrescentamos nós: ali, lado a lado com pastores fanáticos de seitas religiosas, ignorantes funcionais, citadores de figuras nazis, o mais hediondo grupelho de ministros alguma vez empossado naquele país. Marcelo tinha ido ao beija-mão solene de uma das mais sinistras figuras da história contemporânea do Brasil, que, entre inúmeras pérolas, já naquela altura tinha no curriculum das misérias morais o ter dito que não «estuprava» mulheres porque não mereciam. Era a tomada de posse de alguém que já não escondia quem era, nem ao que vinha. Mas já ninguém se lembra e sobretudo agora também não interessa lembrar. A mesma comunicação social que promove os «afectos», também não deixa de silenciar as «patadas». «E daí?»

Ler mais

O Observador está com medo de que o mercado «funcione»

Os apelos roçam o desespero. Chega a ser quase enternecedor. O Observador tem fulminado os leitores e visitantes da sua página com mensagens de consternação pela falta de assinaturas e consequente apelo à subscrição paga dos seus conteúdos. José Manuel Fernandes, quando não surge na página a assinar textos bolsonaristas, ou na versão radiofónica com laivos medievais, aparece assim com ar sereno e cândido, de gatinho abandonado, implorando a todos os santinhos que façam lá a subscriçãozinha do órgão que o alimenta. Não se percebe de que tem medo o Observador. Afinal, caros amigos, é só a justiça do mercado a funcionar. Afinal, todos sabemos que em cada falência há sempre uma nova oportunidade. Novos e mais fortes empreendimentos, mais adaptados e evoluídos, surgirão no seu lugar. José Manuel Fernandes e seus pares não devem fazer cara feia ao seu negro futuro de gestores falidos: têm de estar gratos e satisfeitos pelo facto nobre e valente de a sua falência poder vir a dar lugar a um empreendedorismo mais próspero e mais capaz! Ler mais