Carta Aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Fernando Medina.
Medina e o amarelo da Carris
Carta Aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Fernando Medina.
“Simply because we were licked a hundred years before we started is no reason for us not to try to win.” [Simplesmente porque fomos derrotados cem anos antes de começar não é motivo para não tentar vencer.]A citação é óbvia. Atticus Finch é a razão pela qual muitos americanos proclamam a opção pela advocacia. Compreensivelmente, diria. Os crimes raciais são mais do que muitos e há uma altura que a impotência perante os vários sistemas inflige a necessidade de agir dentro desses sistemas. O assunto da semana levou-me a pensar cuidadosamente se deveria escrever algumas palavras sobre ele. Naturalmente, sobre a decisão, nada direi, aguardando cuidadosamente o rumo que tomará em tribunal. Em todo o caso, sendo esta a minha casa, não posso deixar de escrever algumas coisas que desde o início do processo me incomodaram e só agora emergiram.
Os últimos dias foram bastante profícuos em casos de imbecilidade extrema. Médicos que acham a homossexualidade uma doença, psicólogos que acham que a erva deixas as pessoas homossexuais e uma advogado que é só o espelho dos partidos que representa, PSD e CDS, despejando ódio e preconceito sobre ciganos e negros. O direito de gente como esta encher páginas nos media dominantes não pode ser encarado como uma coisa normal, apenas sujeita a critérios editoriais. A democracia burguesa abre caminho a estas posturas, ao palco para medíocres, ao afunilar opiniões, procurando uma aceitação fácil que possa render alguma exposição a um título chamativo nas redes sociais.
«Segundas e terceiras gerações que não passam de parasitas da sociedade» Susana Garcia, na TVI.
Uma vez, conheci um homem que viajou no tempo. Mergulhou na vertigem espacio-temporal que o catapultou dos anos 80 para o presente e encontrei-o numa das margens da ria de Bilbau. Entrou na máquina que o trouxe ao futuro ainda jovem e saiu com o rosto enrugado pelo tempo. Respondeu-me que era mentira. Que tinha vindo do futuro e que aterrara no passado. De uma cidade cinzenta e industrial onde a luta de classes era o motor da história, observava agora como se afogava a rebeldia nas mornas águas da cidadania responsável. Curioso, perguntei-lhe como havia viajado no tempo. Um dia, a polícia emboscou-o e metralhou-o. Moribundo, conseguiu sobreviver e viveu sequestrado durante três décadas nos cárceres espanhóis.
Na manhã do passado dia 7, Brian Easley, de 33 anos, entrou num balcão do Wells Fargo em Cobb, um subúrbio de Atlanta, na Geórgia, EUA, e anunciou que tinha a mochila cheia de explosivos. Depois, pediu às duas trabalhadoras que chamassem a polícia e telefonou para o canal de televisão local, a WSB-TV, e comunicou o ponto único da curta lista de exigências: 892 dólares.
Corria o dia de ontem e assinalava-se em Nogueira da Regedoura(Sta.Maria da Feira) mais uma sentida homenagem a Ferreira Soares, “Dr. Prata”, militante do PCP, assassinado a tiros de pistola-metralhadora no seu consultório.
Ferrreira Soares nasceu em 1903 em Viana do Castelo, tendo cursado Medicina na Universidade do Porto. Concluído o curso, exerceria a sua actividade clínica primeiro em Espinho e depois em Nogueira da Regedoura. Seria ainda reconhecido etnógrafo, crítico e contista.
Há vários motivos que levam a que, por vezes, nos sintamos mais próximos de cidades que estão a milhares de quilómetros do que de alguns locais aqui ao lado. Quando digo “nós” refiro-me, especialmente, aos sortudos como eu, que nasceram junto ao mar – onde a mãe, chegada do interior transmontano, veio desaguar – e, mais do que isso, junto a uma das duas grandes cidades que competem no país. São as tecnologias, as aplicações, os telemóveis, o mundo à distância de um clique, os filmes e as notícias que consumimos e esta mania de achar que somos maiores do que na verdade somos. E nós temos tudo para ter grandes cidades, mesmo quando as nossas cidades grandes são mais pequenas que a esmagadora maioria daquelas com que competimos.