Autor: Bruno Carvalho

As avenidas do futuro

Bruxelas não é uma cidade especialmente agradável. Talvez a ideia de ser a capital da União Europeia não me tenha feito compreender o interesse na estátua ridiculamente pequena de uma criança a urinar água sobre um tanque. Caracas tampouco é bonita. Mas, para mim, é capaz de ser a mais bela das cidades feias. São as pessoas e não os edifícios que me conquistam a simpatia. A beleza dos bairros de Falls Road, Ardoyne e Bogside está naqueles que fizeram de Belfast e Derry capitais da resistência. É útil admirar a pomposidade parisiense?

Absolutamente. Também Neruda se espantou com as enormes igrejas de Lisboa, grandes como empadões, enquanto pelas suas ruas corriam bandos miseráveis de crianças descalças. Era, então, a capital de um império decadente que se erguera à custa da colonização, da escravatura e da espoliação dos recursos roubados aos povos agrilhoados de África, América Latina e Ásia. O chileno era ainda um desconhecido poeta que fazia escala em Lisboa a caminho da Birmânia para chefiar o consulado de Rangum.

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«A função social da terra só se cumpre com as mãos de quem a trabalha»*

Há 40 anos, os trabalhadores agrícolas do Sul do País tomaram a decisão de romper com séculos de opressão baseada na propriedade das terras. Extensas herdades de uma minoria agrária com poder económico e político conviviam com a pobreza e a miséria da maioria do proletariado agrícola. Com Abril, encerraram-se as portas da brutalidade fascista e pôde semear-se nos campos aquilo a que Álvaro Cunhal chamou “a mais bela conquista da Revolução”. À conversa com alguns dos protagonistas da Reforma Agrária, percorremos os caminhos do passado sem perder de vista o presente e o futuro de uma aspiração inscrita na história da luta dos trabalhadores portugueses.

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Transportes coletivos: O público é de todos, o privado é só de alguns*

A poucos meses das eleições legislativas, o Governo acentua o ataque ao direito dos portugueses à mobilidade e abdica da defesa de um instrumento fundamental para a economia do País. Com a aprovação do novo Regime Jurídico do Serviço Público de Transporte de Passageiros, o Executivo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas entrega a concessão dos transportes públicos a empresas privadas e responsabiliza as autarquias pelo seu financiamento.

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Uma viagem ao coração da resistência irlandesa (1ª parte)

Sob o céu carregado de Falls Road, no cemitério de Milltown, não se ouve mais do que a gravilha debaixo dos nossos pés. Há muitos anos, o demencial ataque de um lealista fez vários feridos enquanto a população republicana de Belfast enterrava um dos três membros do IRA abatidos pelas forças especiais do exército britânico em plena luz do dia nas ruas de Gibraltar. Lançou granadas e disparou sobre os civis que prestavam a última homenagem aos seus heróis. Em fúria, perseguiram-no e entregaram-no à polícia. Pior sorte tiveram os dois soldados britânicos que, três dias depois, vestidos à civil se atravessaram de carro em frente a uma das marchas fúnebres. O veículo foi cercado pela raiva das centenas que choravam os seus mártires enquanto os militares disparavam para tentar dispersar a multidão. Arrancados à força, foram linchados e entregues ao IRA que os abateu. As imagens dos acontecimentos encheram telejornais do mundo inteiro e Margaret Thatcher afirmou que havia sido o crime mais hediondo durante a sua legislatura. A hipocrisia de uma primeira-ministra que largou milhares de trabalhadores no desemprego e na miséria, que levou o sabor da morte às Malvinas e que deixou morrer os dez grevistas de fome do IRA e do INLA.

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A Venezuela será tumba de fascistas

Há muitos, muitos anos, quando já o fascismo português agonizava, a tragédia abateu-se sobre o povo chileno. A classe trabalhadora do país sul-americano havia cometido o crime de ambicionar uma vida digna e a esperança semeada pelos mil dias do governo liderado por Salvador Allende foi esmagada pela barbárie planeada em Washington e executada pelos homens de Augusto Pinochet.

Hoje, é a dignidade do povo venezuelano que tenta resistir à mira do imperialismo. As mesmas queixas sobre a falta de produtos prolongam-se em filas intermináveis que já haviam sido cantadas por Victor Jara numa canção a que chamou desabastecimento. Mais de 40 anos depois, o açambarcamento é dirigido pela orquestra da oligarquia venezuelana que afina pela pauta norte-americana.

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Por Ahora Y para Siempre

Há oito anos, uma prostituta parou-me no meio da rua para me perguntar se o tipo que levava estampado na t-shirt era Lénine. Essa história contei-a dezenas de vezes para ilustrar o grau de politização de uma sociedade radicalizada entre os que defendem um novo modelo social e os que se batem pela manutenção dos privilégios da oligarquia venezuelana. Ontem, numa esquina do centro de Caracas, dois homens esgrimiam argumentos numa discussão sobre se o processo bolivariano é ou não uma revolução. Uma amiga, jornalista, explicava que é um dos temas que mais incendeia e apaixona os que acabam quase sempre por terminar abraçados pelo sabor do rum.

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Os assassinos do Charlie Hebdo

O que pensarão os sobreviventes civis de um ataque norte-americano no Paquistão? É certo que as bombas vêm de Washington mas se não houvesse talibãs talvez não existisse guerra. Não creio que o vejam assim. Não há lucidez para essas coisas quando estilhaçam a tua família pelos ares. Os culpados são os norte-americanos, ponto. O que pensarão os sobreviventes civis de um atentado islâmico em Paris? É certo que as metralhadoras foram empunhadas por homens que gritavam por Alá mas se a França não tivesse apoiado a guerra contra Kadafi e Bashar al-Assad talvez não houvesse atentados. Neste caso, repetindo o mesmo exercício, os culpados são os muçulmanos, ponto. Não, não há mesmo lucidez para perceber que as vítimas das guerras são sempre os mesmos. Os trabalhadores e os povos que enchem rios de sangue para ilustrar o extremismo religioso que alimenta o fanatismo e abre caminho ao imperialismo. Foi sempre assim.

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Um conto de natal

Uma vez, aterrei num país em que o natal era todos os dias. Ao contrário de Lisboa, não havia sem-abrigo debaixo dos enfeites. Nem por cima, nem em lado nenhum. Procurei-os por todas as partes e expliquei aos que por mim passavam que do outro lado do mar, onde vivo, os mendigos cumprem uma função espiritual de primeira ordem. São o oxigénio da caridade. Sem eles, não se podem encher páginas de jornais com louvores à singular generosidade dos ilustres que tendo dinheiro subtraem parte do sofrimento humano para saldar as suas dívidas de luxuria e ganância.

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