Tendo tido conhecimento de que António José Seguro tinha apresentado uma “moção política sobre as grandes opções do Governo”, fiz questão de abrir o prometedor documento e de o guardar no computador para lê-lo mais tarde. Afinal de contas, o título pré-anunciava uma coisa “em grande”, de leitura demorada, fazendo supor uma extensa e bem trabalhada moção política, com bons e sólidos fundamentos de medidas e estratégias para quatro anos de governação. Lá abri então o douto documento. Constato, desde logo, que são sete páginas. Constato ainda que uma das quais é a capa. E constato, por fim, que a última página tem oito linhas.
Autor: Ivo Rafael Silva
Cobardia, aldrabice, desprezo e estupidez
Às vezes acontece-nos isto. Gente que até gostamos de ler, pessoas que nos fazem sorrir, que escrevem com elegância mas que, num momento de aparente menor lucidez, nos fazem regressar «à terra» e nos mostram como é ténue no comportamento humano a distância entre a qualidade e a boçalidade. É o que acontece com Miguel Esteves Cardoso e um seu recente artigo no Público intitulado “Escolher Israel”.
«Está tudo bem com o BES»
Tal como Pedro Passos Coelho, Cavaco Silva e Carlos Costa nos tinham diligentemente “informado” há poucos dias, parece que está mesmo “tudo bem” com o BES. Finalmente, alguma estabilidade. Finalmente, os mercados, livres que estão da agitação e perigo de “eleições” e “crise política”, podem estar tranquilos e banhar-se na solidez, correcção, licitude e transparência das contas de um dos maiores bancos nacionais.
Não há ‘mesmo’ razões para alarme. Os problemas são ‘mesmo’ no GES que, aliás, não tem nada a ver com o BES e nada do que se passou no BES foi senão um mero ‘lapso’ sem grande importância. Ao estilo cherne em declarações pós-almoço, “que se calem” aqueles que dizem que isto pode ser um novo BPN. Nada disso. Até porque no BPN, apesar do esforço dos seus valorosos gestores, nunca houve competência suficiente para chegar à “pipa de massa” de mais de 3500 milhões de prejuízo num único semestre. Afinal de contas, por comparação com os gestores do BES, os do BPN não passam de uns tristes amadores.
Se Seguro quer o PSD, Costa o PSD quer
Excelente notícia para Cavaco Silva. Excelente notícia para os banqueiros deste país. Excelente notícia para os Salgados, Ulrichs, Melos e companhia limitada. António Costa, por certo sensibilizado com os sucessivos apelos do presidente para uma “união sagrada” em torno de uma via única de governação, mostrou-se inequivocamente disponível para se coligar com o PSD. Para que esse “sonho” de Cavaco se cumpra, Costa só impõe uma única condição: que seja um PSD… sem Passos Coelho. Ou seja, tudo o resto pode manter-se. A forma de governação, a política, a ideologia, a submissão externa, a obediência ao sector financeiro, os lobby’s, a desgraça social do país, enfim, tudo isso já é matéria perfeitamente enquadrável nas elevadíssimas exigências do PS de Costa. Alguma novidade neste campo? Absolutamente nenhuma. Nesta altura, diga-se lá o que se quiser, quanto ao PS já só se ilude quem se deixa iludir.
Os senhores 1%
Fomos todos apanhados de surpresa. Por esta é que ninguém esperava. Quem poderia adivinhar? Então não é que um quarto de toda a riqueza nacional se encontra concentrada em apenas 1% da população? Haverá por certo quem se interrogue, com genuíno espanto, sobre quem constituirá de facto este punhado de oligarcas barrigudos, que vive no mesmo país em que mulheres grávidas chegam com fome aos hospitais. Não é fácil, pois não?
António Costa & Os Lugares Comuns
Talvez soe a nome de banda de garagem, de má qualidade por certo, mas – atenção! – ainda assim capaz de dar ‘música’ a muito boa gente. Não desvalorizemos nem subestimemos o fenómeno. Esta nova ‘banda’, lavadinha, com ar fresco, seria muito bem capaz – à semelhança de outras – de atingir o ‘top de vendas’ repetindo ad nauseam o seu único ‘hit’. Não tem substância artística, digamos assim, mas tem tão somente o condão de reproduzir ‘temas’ que entram facilmente no ouvido da larga maioria dos ‘ouvintes’. Tirando essa ainda assim eficaz ilusão, ou essa superficialidade sonora, a qualidade continua a ser tão má como a da ‘música’ que temos ouvido nos últimos três anos.
A Teimosia do PCP
Faz hoje anos que Álvaro Cunhal morreu. E faz também anos que muitos prenunciaram (pela 9858748ª vez) a morte do partido que, curiosamente, mais tem crescido nos últimos tempos. E isso, parecendo que não, para muitos constitui um problema. O PCP esteve muitas vezes “para morrer”. Teimosamente, nunca deu essa enorme satisfação à direita portuguesa (PS incluído), muito menos àqueles que no recato de um fascismo mais ou menos contido, anseiam pelo fim do partido político que resiste e luta coerentemente, luta após luta, ano após ano, ao lado do povo e dos trabalhadores portugueses.
O que os estorva mesmo é a democracia
Já não deve constituir surpresa para ninguém o facto de PSD e CDS demonstrarem enorme interesse em derrubar, de uma vez por todas, quaisquer obstáculos que se entreponham à sua missão ideológica. Atendendo às reincidências no cadastro da sua acção governativa, já não se pode nem se deve falar de «incompatibilidade» da política deste governo com a Constituição. Mais do que isso, trata-se antes de perigosa e muito grave «incompatibilidade» de PSD e CDS com a própria democracia. Estes partidos, não apenas pela prática política mas também pelo discurso cada vez mais reaccionário dos seus principais responsáveis, vão deixando cair essa máscara fictícia de partidos pertencentes a um «centro moderado», a um «centrão» ou «bloco central», ainda que tal falsa ideia vingue (por enquanto) entre a maioria da população. Começa a ser risível, embora preocupante, que haja ainda quem tenha o despudor de falar pejorativamente em “radicalismos” em referência ao PCP – partido defensor acérrimo dos preceitos constitucionais, lutador incansável pelo cumprimento da Lei Fundamental -, quando aquilo que vemos é que os verdadeiros radicais, aqueles que ameaçam a democracia, os que procuram incumprir (repetidamente) as leis do país, mesmo as fundamentais, esses, são os que já se encontram instalados no poder em Portugal.