Autor: Ivo Rafael Silva

Do cretinismo no meio da tragédia

1. A China comunista e ditatorial que ainda ontem, segundo o tridentino
Lobo Xavier, estava a resolver o problema “entaipando pessoas com
polícias à porta”, já respondeu “sovieticamente” a Itália com mil
ventiladores pulmonares, dois milhões de máscaras, uma equipa de
médicos, plasma de doentes curados e toneladas de materiais de saúde.
Enquanto isso, a Itália ainda aguarda respostas ao pedido de activação
do “liberal, democrático e ocidental” Mecanismo de Protecção Civil da
União Europeia, que fora feito… a 27 de Fevereiro. Ler mais

Por falar em futebol e racismo: os «camisas negras» do Rio

Muito embora no que a futebol brasileiro diga respeito toda a atenção mediática esteja presentemente centrada no Flamengo de Jorge Jesus, nenhum outro clube dirá tanto a Portugal e aos portugueses como o Clube de Regatas Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Contudo, não é o facto de ter sido fundado e patrocinado por portugueses que nos leva propriamente a coloca-lo aqui em evidência. É que ontem, na Bolívia, numa partida a contar para a copa sul-americana de futebol, o guarda-redes suplente do Vasco foi também ele vítima de insultos racistas. A questão é que, neste caso concreto, tendo em conta o peso simbólico da camisola que o atleta enverga, a situação assume uma dimensão duplamente grave: pelo crime em si, e pelo facto de ter sido cometido precisamente contra um clube histórico do combate ao racismo e à desigualdade. Ler mais

A vaidade de Centeno: um insulto ao país

Ser o «bom aluno» da Europa, ter o rótulo de «cumpridor», receber elogios do Banco Central Europeu, é (quase) tudo para isto. Chamaram-lhe o «Cristiano Ronaldo das Finanças» e ele adorou. Centeno não cabe em si de vaidade, e na ânsia de uma ainda maior dose de alimento para o ego, já não olha a meios para agradar a «soberanos». É também isto explica que, sem qualquer tipo de necessidade acrescida, o Orçamento do Estado para o próximo ano consagre mais impostos, menos poder de compra, mais injustiça social, menos equilíbrio salarial, escasso investimento público e um continuado fechar de olhos à especulação ou à sobreacumulação de capitais. É vaidade e é também pura e dura ideologia. O PS fez hoje, como sempre, uma opção política. O PS não escolheu o país. O PS escolheu a UE. Sem nenhuma surpresa, o PS escolheu o capital. Ler mais

Fascismo à beira-mar plantado

A eleição de forças de extrema-direita para o parlamento português foi um balão de oxigénio para muito fascista envergonhado e contido. Para além destes, que agora exibem sem pudor a sua vontade de gasear ciganos e expatriar pretos, há também uma cavalgante onda de propaganda fascista a invadir as redes sociais. Não é apenas uma petição, não é só um meme, não é apenas um ou dois comentários, é uma campanha orquestrada que está em toda a parte. Ler mais

Lucas 18:24,25

Temos assistido, nas últimas horas, e sem surpresa, a uma vasta procissão de carpideiras direitistas e liberais. A coberto de uma comunicação social predominantemente alinhada, lá vão derramando lágrimas e loas sobre o féretro de Soares dos Santos, o “herói nacional” e também “cristão”. Há as que o fazem porque têm o “empresário” nos altares da sua ideologia; há as que fazem habitualmente de qualquer morte a purificação de vidas pouco santas; e há, por vezes, também as que são um misto das duas. Nenhuma destas carpideiras há-de, porém, verter uma lágrima que seja pelos milhares de explorados que efectivamente edificaram o império. Nenhum direitista chorará pelos milhares de precários que, por quererem «sobreviver», construíram com o lombo a “grandiloquente” Jerónimo Martins. Aliás, é para isso que essa «massa» serve; para fazer impérios e dotar de “alma” esses imperialistas a quem possam “beijar os pés” na vida e na hora da morte. Opções. De classe, naturalmente. Ler mais

Populismo: o problema do receptor

O problema maior da disseminação de conteúdos falsos e de extrema-direita por páginas populistas nas redes sociais não reside propriamente no facto de essas páginas existirem. O maior dos problemas está no receptor, mais do que no emissor. O maior dos problemas é haver quem partilhe os seus conteúdos não porque ache genuinamente que sejam verdadeiros, mas porque, no fundo, quer e deseja de facto que tudo aquilo seja verdade.

Quem partilha falsas publicações de supostos privilégios de ciganos a viver em Portugal, não o faz por estar convencido de que isso seja verdade. Fá-lo porque é racista, tenha disso consciência ou não. Quem partilha publicações sobre alegadas agressões a polícias e empolamentos de violência contra as autoridades, não o faz porque tenha conhecimento de causa. Fá-lo porque é apologista do militarismo e autoritarismo tão em voga nos regimes fascistas. E outro grande problema é este: temos dado demasiada borla à alegada “ingenuidade”. Não é.


Fico sempre de sobrolho franzido quando leio ou oiço dizer que Portugal “ainda não cedeu a populismos”. Mesmo quando sabemos que temos um presidente da República cuja carreira político-partidária oscilou entre o mau e o medíocre, mas que, fruto da sua habilidade comunicacional, gozou de palanque privilegiado nas televisões para exercer todo o seu populismo demagogo e simplista, naturalmente oportunista, zigue-zagueante, contraditório e hipócrita.

Os tempos são exigentes e difíceis para quem se opõe a este “estado de coisas”. Os meios e as ferramentas do populismo são hoje muito mais eficazes e céleres. Mas isso não implica necessariamente que haja “novidade” na substância, muito menos no objectivo. A forma muda mas o rumo é o mesmo. Pior que um país seduzido por fascistas, é um país que quer mesmo – com todo o voluntarismo – ser seduzido e engolido por eles. Façamos-lhes frente.

Debater a Europa, esse eufemismo

Foto: Versobooks

De repente, do alto sapiencial de quem adora «recentrar» ou «circunscrever» todas as discussões à órbita da sua própria mundividência, ou ego, aparece a afirmação ou acusação de que os candidatos às próximas europeias não estão a «debater a Europa». Mas o que é isso de «debater a Europa» afinal, quando esse apelo vem geralmente da direita, de liberais, de ditos europeístas, ou dos comentadores que se sentem muito confortáveis com o sistema? Vamos por partes, começando por referir aquilo que essa expressão definitivamente «não é».

«Debater a Europa» não é debater as condições de vida da população residente na UE, porque esses que exigem tal debate são os mesmos que fazem vista grossa ao colossal fosso existente entre os países que pertencem à mesma UE, nomeadamente nas brutais diferenças de salários, de pensões, de sistemas de saúde, de educação, nas quotas de produção, etc. São exactamente os mesmos que, sabendo que o papel de Portugal na UE esteve, está e continuará a estar reservado «à cauda» do sistema, mesmo assim acham «muito bem» que sejamos todos muito «europeístas» e muito defensores de uma união económica e financeira.

«Debater a Europa» não é debater política económica, porque os que clamam por esse «debate» não são nem nunca foram capazes de apontar o dedo a interferências e ingerências dos «grandes» da UE e dos mandantes do BCE na soberania económica e financeira dos demais países da União. São os mesmos que aceitam tacitamente um sistema que submete os países a jugos apertados, a troikas calculistas, a impostos sem o devido retorno ou a quotas de produção asfixiantes.

«Debater a Europa» não é debater a paz entre as nações, porque quem o exige não se importa nada que a UE pactue ou participe activamente nas acções de guerra e saque dos EUA a nações soberanas, por «mero acaso» ricas em recursos naturais.

«Debater a Europa» não é debater o ambiente ou as políticas ambientais, porque isso não se faz com uma postura ou posição de defesa ou de transigência para com o capitalismo desenfreado que a UE intrinsecamente desenvolve. Sob a capa de federalismos «verdes», falsos e hipócritas, é o capitalismo o inimigo primeiro e mais sério do meio ambiente e dos ecossistemas, que não tem pejo em destruir e submeter às suas «regras», lógicas, interesses e desmandos.

O que é então, para esses «exigentes» senhores, «debater a Europa»?

«Debater a Europa» não é um debate, é desde logo uma assunção. É a assunção de uma lógica de pertença inquestionada e inquestionável a uma federação capitalista que existe e vai sempre existir, sem espaço para perguntar verdadeiramente se é essa ou não a vontade do povo português (que nunca foi consultado ou referendado nessa matéria, por muito que digam o contrário).

«Debater a Europa» não é um debate, é uma abstracção. É fazer de conta que os assuntos que se «debatem» têm impacto nas decisões mais importantes e mais determinantes da UE relativamente à vida dos povos ou à soberania dos Estados, e que elas não são sobretudo impostas pelo directório do grande capital, pelos grandes países dentro e fora da própria UE, como é o caso dos EUA.

«Debater a Europa» não é um debate, é uma manobra de diversão. É retirar importância à luta social e laboral dos trabalhadores e dos povos, iludindo-os de que é apenas e só numa eleição para um parlamento cujo único grande poder é o direito de veto – e mesmo este, partilhado –, que reside a salvação para todos os males que os afligem. Isto não significa que devamos voltar costas à sua realização e à necessidade da eleição de deputados. Aliás, só na perspectiva de que esta eleição é apenas uma pequena parte de uma luta muito maior, é que todos devemos não menosprezá-la nem abandoná-la à sorte e ao arbítrio dos partidos do sistema, mas participar nela marcando a diferença, votando ao lado daqueles que querem verdadeiramente contrariar a sua lógica e obter os ganhos possíveis para quem menos tem e menos pode.

Santos Silva abriu a boca e não entrou mosca

O ministro português dos negócios estrangeiros voltou a abrir
a boca. Sim, é Santos Silva, e todos sabemos o “desconto” que lhe deve estar associado,
mas mesmo assim a sua queda para a imbecilidade nunca cessa de se manifestar e
de atingir, a cada nova tirada, sempre novos e mais altaneiros patamares. A
verdade é que Santos Silva tem sido muito mais que um ministro de negócios estrangeiros.
Fazendo eco da sua rancorosa aversão a partidos, movimentos ou governos de
esquerda, ele tem ocupado, pela via agravada da oficialidade do cargo, a linha
da frente do propagandismo anti-venezuelano nacional e europeu. Santos Silva,
usando e abusando do palco que tem por inerência de funções que vergonhosamente
ainda exerce, faz constantes ataques, ora velados ora directos, a um governo e
a um estado soberano e independente. Perante o silêncio condescendente de Costa
e Marcelo, o que também não espanta.
Já vimos Santos Silva em toda a sua hipocrisia, sonsice e
cinismo, apertando a mão, sorridente, a Maduro, ao mesmo tempo que procurava
espetar-lhe uma faca nas costas. Já vimos, ouvimos e lemos as suas declarações
patéticas e até histéricas sobre a Venezuela que quer “pintar”, para além daquela
que verdadeiramente existe. Mas desta vez, Santos Silva chegou ao nível do
grotesco e da perversão. Numas declarações quase inacreditáveis – afinal, é
apenas e só Santos Silva – o MNE português chega ao ponto de dizer que “não há registo de óbitos” em relação directa com a situação de crise na Venezuela, mas“certamente que haverá entre os óbitos alguns que poderiam ter sido evitados se as condições de saúde fossem melhores”. Repito: seria inacreditável que um MNE dissesse uma irresponsabilidade e uma tirada de tamanha perversidade, se ela não viesse precisamente de quem veio. Santos Silva não se mede e não se topa. Já vale tudo, até trazer
à liça hipotéticas mortes que ele sabe que não existem. Além do mais, rematando
com uma frase que tanto podia ser dita na Venezuela como em Portugal: se as
condições fossem melhores, evidentemente, também não havia tantos mortos no
Portugal do governo do senhor Santos Silva ou noutro lado qualquer.
Mas convinha, de facto, continuar por aí. Se as condições fossem melhores, teríamos um governo a sério, com política externa soberana e independente, não um conjunto de burocratas vergados e obedientes a Bruxelas e a Donald Trump. Se as condições fossem melhores, por arrastamento, teríamos um Ministro dos Negócios Estrangeiros a sério, e não um provocador de meia tijela, não um lacaio do imperialismo, muito menos um direitista encapotado. Se as condições fossem melhores, Santos Silva não só já não era MNE, com não era ministro de nada nem de coisa nenhuma. É que, apesar de não termos registo da “morte política” de Santos Silva, “certamente que ela existirá” e que “poderia ter sido evitada se as condições fossem melhores”. Mas, por enquanto, não são. Até ver.