Autor: André Solha

Sobre-exploração e tomates cherry

O Marx foi um gajo porreiro. Justo e generoso. Deixou-nos O Manifesto, mas como não queria deixar os burgueses à deriva, entregues às tolices da mão invisível, deixou-lhes O Capital. E eles estudaram-no, bem melhor do que nós. Stalin explica:Stalin meme 2

Vem isto a propósito das declarações do Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), particularmente da frase que deu manchete e indignou muita gente: “As pessoas são contra as estufas em Odemira mas depois querem comer tomates cherry”. Eu percebo a indignação. É um murro no estômago, porque a verdade dói. As pessoas são contra aquelas condições de trabalho mas querem tomates cherry. E querem telemóveis com baterias de lítio por tuta e meia. E querem t-shirts a 3 euros e calças de ganga a 9 euros na Primark. Tudo isto sem ter de pensar que nos custos de produção, o custo que mais facilmente pode ser reduzido é o custo da mão de obra – e para isso, não há nada melhor do que explorar os trabalhadores do terceiro mundo. Como disse a Sophia de Mello Breyner:

 

As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas

 

Sejamos honestos: por muito que achemos ultrajantes as palavras do secretário-geral da CAP, o que ele disse nem é novidade nem é original na burguesia: há uns dias, sobre o mesmo tema, o presidente Marcelo disse que precisamos dos imigrantes porque fazem “trabalhos que os portugueses não aceitam fazer, mesmo em período de desemprego”. Já deu para perceber, ou é preciso um desenho? A classe dominante não tem nada contra a imigração, pretende é que os trabalhadores imigrantes sejam submetidos à divisão racial do trabalho. Mesmo a extrema-direita abertamente racista não tem problemas nenhuns em explorar trabalhadores imigrantes, a viver em prédios construídos por trabalhadores imigrantes e a trabalhar em escritórios limpos por trabalhadores imigrantes, desde que a divisão racial do trabalho se mantenha, e que esses imigrantes sejam para sempre cidadãos de segunda. É essa a base do nacional-chauvinismo. Portanto, para a generalidade da população o problema não é que situações de sobre-exploração como aquela que se verifica em Odemira aconteçam; é que elas aconteçam cá. É mais confortável quando condições de trabalho iguais ou piores se verificam lá longe. Sejamos honestos: a generalidade dos indivíduos no núcleo do Império ignora activamente o sofrimento dos trabalhadores do mundo sobre-explorado sobre o qual assenta o seu bem-estar relativo, num processo de ansiedade doxástica que envolve um esforço, consciente ou inconsciente, de não tomar conhecimento das condições em que são produzidos os seus bens de consumo. Não é propriamente novo o conhecimento das condições de trabalho a que são sujeitos os trabalhadores imigrantes de Odemira, ou quaisquer outros trabalhadores desprotegidos, seja qual for a sua nacionalidade ou sexualidade, quase sempre relativizados com uma qualquer variação do “ao menos têm emprego” que há uns anos o Martim Neves grunhiu sob os aplausos duma plateia histérica. O tratamento dado aos trabalhadores das estufas de Odemira decorre naturalmente do entendimento contemporâneo do trabalho e do trabalhador como se de uma mercadoria se tratasse: se daí resultar uma maior apropriação de mais-valia, o burguês prefere importar os trabalhadores em vez de importar os bens de consumo. É a aplicação dos métodos coloniais na metrópole. E isso, explicou-nos o Aimé Césaire, é a génese do fascismo.

Mas adiante: Não pretendo com isto apelar ao ascetismo, à fantasia hippie da quinta comunal, ao mito do consumo ético; não existe consumo ético sob a alçada do capitalismo. Vamos continuar a consumir produtos produzidos por trabalhadores explorados porque todo o trabalho assalariado é exploração, e vamos continuar a consumir produtos produzidos por trabalhadores sobre-explorados porque são os únicos ao alcance dos nossos rendimentos. O que é urgente é que todos tomemos consciência de que o sistema em que vivemos, ainda que possamos gozar de algum bem estar relativo, se constrói e desenvolve às costas do sofrimento de milhões de seres humanos. Das dezenas de milhar de seres humanos, muito deles crianças, que todos os dias morrem por falta de recursos que existem mas que estão fora do seu alcance porque não é lucrativo fazer-lhes chegar esses recursos. O que é urgente é que nos solidarizemos com todos os povos do mundo, com os seus movimentos de libertação, que rejeitemos e denunciemos a propaganda imperialista que sobre eles lança todo o tipo de mentiras e calúnias, que rejeitemos doutrinas que promovem a divisão racial ou sexual do trabalho e as reconheçamos como aquilo que são: não categorias neutras, mas instrumentos de opressão e divisão de classe ao serviço do capital.

Há uns anos, o Warren Buffett disse “Claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que a está a travar, e estamos a vencer”. É urgente que também nós, trabalhadores, tomemos consciência de que só pela luta de classes é que conseguiremos desmantelar este sistema desumano e desumanizante que é o capitalismo.

Futuro Armadilhado

Dez meses.

Desde a primeira declaração de Estado de Emergência até hoje, passaram-se dez meses. E qualquer pessoa com dois dedinhos de testa já percebeu que não vai ficar tudo bem. A economia não vai recuperar magicamente quando estivermos todos ou imunes ou vacinados ou mortos. Os postos de trabalho que foram destruídos com a pandemia não vão ser recuperados tão cedo, pura e simplesmente porque durante este período de dispensa de trabalhadores com contratos precários, em período experimental, com os layoffs, e todas as outras formas de reduzir prejuízos ou aumentar lucros cortando no número, nos rendimentos e nos direitos dos trabalhadores, o capital conseguiu aquilo que queria: manter a produção a funcionar com menos trabalhadores. O mantra liberal de que é a iniciativa privada que gera emprego caiu de podre: o capital cria postos de trabalho na estrita medida necessária para corresponder às necessidades de consumo de bens e serviços da sociedade.

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Identidade, opressão e luta de classes

Depois de, no meu último contributo, me ter debruçado sobre a génese do racismo no seio do capitalismo e o seu papel na subalternização do sujeito racializado, é agora vez de clarificar a posição materialista histórica e dialéctica sobre as opressões de grupos que divergem da identidade natural burguesa – branca, europeia ou euro-descendente, heterossexual e culturalmente judaico-cristã, para finalmente concluir o porquê da opção pela crítica marxista e não pela interseccionalidade para estudar as opressões.

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O racismo não é um papão

"O RACISMO ACORRENTA AMBOS", cartaz do Partido Comunista dos Estados Unidos da América

Recentemente tenho visto alardeada a tese de que o excesso de discussão sobre o racismo na esfera pública potencia o crescimento do racismo. Ora, o racismo não é um monstro que se autoalimenta, e também não é um papão que desaparece se deixarmos de falar dele. Ele tem uma origem definida e serve interesses claros, os interesses da classe dominante.

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Outra vez arroz?

Pá, eu queria dizer-te isto de mansinho, mas não dá. Não dá! Se tu olhas para uma mulher com a cara toda esmurrada e começas logo a procurar justificar aquilo que lhe aconteceu, desculpando quem lhe fez aquilo, és uma besta. Ler mais

O fetiche da farda

Hoje vai de sangue quente e com o coração na boca, a propósito da manifestação das forças de segurança, daquilo que tenho lido a propósito da mesma, e do culto à autoridade, próprio do fascismo, com que são agraciados. Ler mais