Autor: António Santos

Dos fracos não reza a história

O autocarro cheira a bafo de sanduíches fermentadas toda a tarde em papel de prata. Tupperwares desabrocham para o jantar em arrotos de chouriço. José, que vai mesmo à nossa frente, está inquieto. Em vão, ajeita-se no assento, procurando um suporte mais confortável para a bola de carnes cozidas da sua formidável barriga. Rebusca um saco do Pingo Doce – Pois… – esqueceu-se mesmo da comida. – Merda para isto… – descarrega baixinho. Velozes, os olhos de Rita, aquela miúda do outro lado do corredor, despejam-lhe em cima um balde de condescendência e viram-se outra vez para a janela. Lá fora, repete-se com admirável precisão a paisagem desolada do Baixo Alentejo, uma crosta de pó improdutivo, tão ampla que parece adivinhar no horizonte a própria curvatura do planeta.

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Os que fecham a porta do vagão

Há tempos, discutia com uma amiga a possibilidade do retorno do fascismo no nosso tempo de vida. Pode ser difícil imaginar a velha Europa a reinaugurar os campos de concentração e a desfilar pelas avenidas parisienses de cruz gamada ao braço ao som do passo de ganso, mas ela está aí.

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5 razões para ser leninista em 2014

Desde a morte de Engels que o leninismo é a mais radical, coerente e incendiária adenda à doutrina marxista. O contributo de Lenine não foi edificativo para que o operariado assimilasse e aplicasse a obra de Marx, foi também o inspirador da primeira revolução desde a Comuna de 1871 a acabar com o capitalismo e a instaurar o socialismo. Nos nossos dias amargos de miséria, quando os tambores da guerra voltam a ribombar em todos os continentes, cabe aos marxistas e a todos os revolucionários prestar especial atenção aos fundamentos do leninismo. Afinal ele é, comprovadamente, o mais eficaz dos guias para destruir o capitalismo que diariamente destrói a humanidade.

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Marca Portugal

Se há coisa que os nossos meios de comunicação social gostam, é da finura de lábios estrangeiros a pronunciar a palavra “Portugal”. Estou em querer que basta um americano articular esse abracadabra para choverem parangonas nas manchetes nacionais sobre a “marca Portugal” e a nossa importância no mundo.

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A retaguarda da tua vanguarda não é grande espingarda

Pelo título do artigo de São José de Almeida, “Uma herança de Cunhal“, eu esperava o último foguete do fogo-de-artifício anti-comunista. O centenário do histórico comunista deu ensejo a muito parolo para deixar a caneta destilar peregrinas teorias da conspiração, ódios antigos e outros recalcamentos políticos de traço patológico.

Mas não, São José Almeida não é papagaio de circo nem vaquinha de presépio. Não nos vem dizer que o PCP está a adorar às escondidas estátuas de Cunhal nem que o ex-dirigente denunciou à PIDE o senhor que lhe veio montar o ar condicionado aquando da sua estadia balnear na Roménia. Antes fosse, porque de todas as que já ouvi por ocasião do centenário, a serôdia acusação de SJA contra Cunhal leva a camisola amarela da parvoíce.

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Marx na Baixa

Marx marca de forma indelével a narrativa histórica do século XX. A sua filosofia inspira revoluções, redesenha fronteiras e agita, com a promessa de um mundo novo, os corações da humanidade inteira. Mas se 130 anos depois da sua morte o capitalismo triunfante garante tê-lo varrido para debaixo do baú das antiguidades filosóficas, porque será necessário declará-lo morto uma e outra vez? É para responder a esta pergunta que Karl Marx, em licença de uma hora, regressa ao mundo dos vivos. Marx in Soho, foi escrita em 1999 por Howard Zinn (1922-2010), historiador e dramaturgo norte-americano, mais conhecido pela sua autoria da “História dos Povos dos EUA”. A suas obras foram distinguidas com dezenas de prémios, entre os quais o Thomas Merton Award, o Eugene V. Debs Award, o Upton Sinclar Award e o Lannan Literary Award. De estivador a doutor pela Columbia University e professor catedrático, o percurso de vida de Howard Zinn é indissociável do seu compromisso para com a justiça social e a simpatia pela causa dos humilhados. Ler mais

Temas fracturantes (para a coerência)

Hoje à tarde ouvi o BE a defender no parlamento exactamente o que eu penso sobre a adopção e co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo: que os direitos fundamentais não se referendam. No entanto, não consigo evitar uma sensação de estranheza… não foi este o mesmo BE que eu vi em 2006 a defender e votar a favor da celebração de um referendo à interrupção voluntária da gravidez? Nesse ano, o PCP e os Verdes foram os únicos a dizer claramente o que agora o BE apregoa como axioma político. Ler mais

Kim Jong-un ordena mais repressão

Na Coreia do Norte, o ditador Kim Jong-un anunciou a proibição de uma manifestação convocada para amanhã em defesa dos direitos humanos. Segundo fontes do regime, a manifestação proibida tinha sido planeada por uma associação ilegalizada há meses e considerada “terrorista”, libelo com que a ditadura da família Kim carimba a dissidência. Ler mais