Autor: António Santos

Longos Corredores

Comecemos pelas boas notícias! Jorge Coelho aparenta boa saúde e ainda afecta o estilo que lhe é característico: algo espontâneo, um pouco inflamado, muito trauliteiro e olimpicamente bronco. É bom saber! Porque Jorge Coelho esteve tanto tempo longe das luzes da ribalta que começámos a nos perguntar se não lhe teria acontecido alguma coisa… O que nunca esperaria do desaparecido dirigente do PS que quatro vezes foi ministro, é que usasse a homenagem aos antigos presidentes Federação da Área Urbana de Lisboa do PS para cometer um atentado contra a História e a inteligência de todos nós. Discursando sobre o 25 de Abril, Jorge Coelho declarou, perante a incendiada ovação de José Seguro, Ferro Rodrigues, João Soares, João Proença, Edite Estrela e Joaquim Raposo, que (pasmem-se!) «Foi o Partido Socialista que liderou a luta pela liberdade antes do 25 de Abril». Sim, ele disse mesmo isto. E mais! Foi o PS que, depois de nos dar o 25 de Abril «evitou que Portugal caísse noutro regime totalitário», lembrando ainda, jocoso, uma entrevista de Álvaro Cunhal em que este dizia que não queria uma «democracia burguesa». «Não há democracias burguesas!» concluiu Coelho.

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Dos fracos não reza a história

O autocarro cheira a bafo de sanduíches fermentadas toda a tarde em papel de prata. Tupperwares desabrocham para o jantar em arrotos de chouriço. José, que vai mesmo à nossa frente, está inquieto. Em vão, ajeita-se no assento, procurando um suporte mais confortável para a bola de carnes cozidas da sua formidável barriga. Rebusca um saco do Pingo Doce – Pois… – esqueceu-se mesmo da comida. – Merda para isto… – descarrega baixinho. Velozes, os olhos de Rita, aquela miúda do outro lado do corredor, despejam-lhe em cima um balde de condescendência e viram-se outra vez para a janela. Lá fora, repete-se com admirável precisão a paisagem desolada do Baixo Alentejo, uma crosta de pó improdutivo, tão ampla que parece adivinhar no horizonte a própria curvatura do planeta.

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Os que fecham a porta do vagão

Há tempos, discutia com uma amiga a possibilidade do retorno do fascismo no nosso tempo de vida. Pode ser difícil imaginar a velha Europa a reinaugurar os campos de concentração e a desfilar pelas avenidas parisienses de cruz gamada ao braço ao som do passo de ganso, mas ela está aí.

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5 razões para ser leninista em 2014

Desde a morte de Engels que o leninismo é a mais radical, coerente e incendiária adenda à doutrina marxista. O contributo de Lenine não foi edificativo para que o operariado assimilasse e aplicasse a obra de Marx, foi também o inspirador da primeira revolução desde a Comuna de 1871 a acabar com o capitalismo e a instaurar o socialismo. Nos nossos dias amargos de miséria, quando os tambores da guerra voltam a ribombar em todos os continentes, cabe aos marxistas e a todos os revolucionários prestar especial atenção aos fundamentos do leninismo. Afinal ele é, comprovadamente, o mais eficaz dos guias para destruir o capitalismo que diariamente destrói a humanidade.

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Marca Portugal

Se há coisa que os nossos meios de comunicação social gostam, é da finura de lábios estrangeiros a pronunciar a palavra “Portugal”. Estou em querer que basta um americano articular esse abracadabra para choverem parangonas nas manchetes nacionais sobre a “marca Portugal” e a nossa importância no mundo.

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A retaguarda da tua vanguarda não é grande espingarda

Pelo título do artigo de São José de Almeida, “Uma herança de Cunhal“, eu esperava o último foguete do fogo-de-artifício anti-comunista. O centenário do histórico comunista deu ensejo a muito parolo para deixar a caneta destilar peregrinas teorias da conspiração, ódios antigos e outros recalcamentos políticos de traço patológico.

Mas não, São José Almeida não é papagaio de circo nem vaquinha de presépio. Não nos vem dizer que o PCP está a adorar às escondidas estátuas de Cunhal nem que o ex-dirigente denunciou à PIDE o senhor que lhe veio montar o ar condicionado aquando da sua estadia balnear na Roménia. Antes fosse, porque de todas as que já ouvi por ocasião do centenário, a serôdia acusação de SJA contra Cunhal leva a camisola amarela da parvoíce.

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Marx na Baixa

Marx marca de forma indelével a narrativa histórica do século XX. A sua filosofia inspira revoluções, redesenha fronteiras e agita, com a promessa de um mundo novo, os corações da humanidade inteira. Mas se 130 anos depois da sua morte o capitalismo triunfante garante tê-lo varrido para debaixo do baú das antiguidades filosóficas, porque será necessário declará-lo morto uma e outra vez? É para responder a esta pergunta que Karl Marx, em licença de uma hora, regressa ao mundo dos vivos. Marx in Soho, foi escrita em 1999 por Howard Zinn (1922-2010), historiador e dramaturgo norte-americano, mais conhecido pela sua autoria da “História dos Povos dos EUA”. A suas obras foram distinguidas com dezenas de prémios, entre os quais o Thomas Merton Award, o Eugene V. Debs Award, o Upton Sinclar Award e o Lannan Literary Award. De estivador a doutor pela Columbia University e professor catedrático, o percurso de vida de Howard Zinn é indissociável do seu compromisso para com a justiça social e a simpatia pela causa dos humilhados. Ler mais

Temas fracturantes (para a coerência)

Hoje à tarde ouvi o BE a defender no parlamento exactamente o que eu penso sobre a adopção e co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo: que os direitos fundamentais não se referendam. No entanto, não consigo evitar uma sensação de estranheza… não foi este o mesmo BE que eu vi em 2006 a defender e votar a favor da celebração de um referendo à interrupção voluntária da gravidez? Nesse ano, o PCP e os Verdes foram os únicos a dizer claramente o que agora o BE apregoa como axioma político. Ler mais