Autor: André Solha

Em memória de Wiriyamu

Na passada sexta-feira o primeiro-ministro, de visita a Moçambique, fez um pedido de desculpas pelo Massacre de Wiriyamu. Foi o quebrar da nossa versão do “Pacto del Olvido”, e afronta uma série de gente. Durante décadas o Massacre de Wiriyamu (entre outros) foi olimpicamente ignorado. Mas aconteceu.

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Trocou a pátria dos trabalhadores por 31 anos de pizza

“Trouxe a democracia”, dizem uns. Ora, depois do Gorbatchov a Rússia teve três presidentes: o Yeltsin, o Putin e o Medvedev. Quando dizem que o Gorbatchov trouxe a democracia, que democracia é essa? Do bêbado responsável pelo desmantelamento da URSS, do gajo que vocês actualmente comparam ao Hitler e ao Stalin AO MESMO TEMPO, ou do Medvedev, que vocês dizem que era só um fantoche do Putin? Quem afirma que o Gorbatchov trouxe a democracia tem pela frente a tarefa hercúlea e ingrata de provar que a Rússia pós-soviética é mais democrática do que a URSS.

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Gentrificação é substituição de classe

Imagina que o Código do Trabalho dizia que em caso de incumprimento por parte do patrão, o trabalhador tem direito de rescindir o contrato.

Ou comes e calas, ou vais para o olho da rua.

Distópico, né?

Mas é exactamente isto que acontece com um contrato de arrendamento. Tu cumpres a tua parte, pagas a tua renda, mas a casa que estás a pagar já não é a casa que alugaste há uns tempos. Tem humidade, mete água, os canos do vizinho de cima lixam-te o tecto, o isolamento da placa foi de vela. Está a precisar de obras. O senhorio não se chega à frente, e a lei mete-te à frente duas hipóteses: a) Pagas as obras do teu bolso, com acordo do senhorio ou sem acordo se for por motivo de força maior ou b) Podes rescindir contrato.

É isto, parça. Ou comes e calas, ou vais para o olho da rua. Ler mais

Sobre o resultado das eleições

Perdi a conta ao número de variações de “o povo é burro e vota mal, agora vai ter o que merece, pobres de direita” que li no rescaldo das eleições.

Mas é claro que os pobres “são” de direita! Ao dominar a infraestrutura da sociedade, o capital domina também a sua superestrutura, tendo o monopólio da criação e circulação de ideias. A maioria das pessoas que vivem nesta sociedade com esta cultura partilham dessas ideias hegemónicas. Essa ideia de que os explorados não sabem o que é melhor para eles e votam contra os seus interesses por tacanhez é elitismo, é ter uma ética de esquerda mas uma epistemologia de direita, é uma ideia que nasce duma posição destacada, à parte e acima do povo.

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E agora, pá?

“O PCP chumba o orçamento, vamos para eleições, a direita ganha, o Vintruja vai para o governo, ai ui é o fascismo, e não tarda nada é a lasanha que me está a meter a mim no microondas. A única forma de evitar isto é votar no PS!”

Caaaalma, geringoncista. Tanto stress ainda te rebenta uma veia. Mais dialética e menos diazepam. O futuro não está escrito na pedra. A única crise política que existe é a que o Marcelo criou, e o OE era tão mau que o único partido que votou a favor foi o PS. O governo, se quiser (e não quer) tem 90 dias para apresentar outra proposta. Ou então pode governar em duodécimos.

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Sobre-exploração e tomates cherry

O Marx foi um gajo porreiro. Justo e generoso. Deixou-nos O Manifesto, mas como não queria deixar os burgueses à deriva, entregues às tolices da mão invisível, deixou-lhes O Capital. E eles estudaram-no, bem melhor do que nós. Stalin explica:

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Futuro Armadilhado

Dez meses.

Desde a primeira declaração de Estado de Emergência até hoje, passaram-se dez meses. E qualquer pessoa com dois dedinhos de testa já percebeu que não vai ficar tudo bem. A economia não vai recuperar magicamente quando estivermos todos ou imunes ou vacinados ou mortos. Os postos de trabalho que foram destruídos com a pandemia não vão ser recuperados tão cedo, pura e simplesmente porque durante este período de dispensa de trabalhadores com contratos precários, em período experimental, com os layoffs, e todas as outras formas de reduzir prejuízos ou aumentar lucros cortando no número, nos rendimentos e nos direitos dos trabalhadores, o capital conseguiu aquilo que queria: manter a produção a funcionar com menos trabalhadores. O mantra liberal de que é a iniciativa privada que gera emprego caiu de podre: o capital cria postos de trabalho na estrita medida necessária para corresponder às necessidades de consumo de bens e serviços da sociedade.

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Identidade, opressão e luta de classes

Depois de, no meu último contributo, me ter debruçado sobre a génese do racismo no seio do capitalismo e o seu papel na subalternização do sujeito racializado, é agora vez de clarificar a posição materialista histórica e dialéctica sobre as opressões de grupos que divergem da identidade natural burguesa – branca, europeia ou euro-descendente, heterossexual e culturalmente judaico-cristã, para finalmente concluir o porquê da opção pela crítica marxista e não pela interseccionalidade para estudar as opressões.

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