Todos os artigos: Nacional

Somos todas as Covas da Moura

Entrei no bairro pela primeira vez. Com a sensação de estar a conhecer uma realidade bem diferente de tudo o que já conheci.

Fico em frente à varanda onde Jailza foi baleada. Vejo onde as carrinhas costumam – costumam – bloquear o bairro. Ele chega e conta o que aconteceu. Onde estava, como foi agarrado e o que lhe disseram. Todo o tempo apenas sou capaz de fazer um esgar de incredulidade.

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“Callcenter – um operário em construção” por Paula Gil

Comecei a trabalhar, num callcenter, na linha da NOS em Setembro de 2014. Fui contratada pela EMPRECEDE, uma empresa fantasma com o único objectivo de servir de intermediário à Teleperformance no recrutamento de recursos humanos. Uma empresa com 7000€ de capital social e mais de 1000 trabalhadores – bem mais de 1000 trabalhadores.

Os dias de formação são pagos a 5€ – as 8horas que lá passas (0,62€/hora) e que são obrigatórias -, mas só os recebes se completares a formação e em conjunto com o teu primeiro ordenado. Para que fique assente: toda a gente passa aquela formação. O único requisito é que não penses muito! Eu recebi 25€ pelos meus 5 dias de formação.

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QALY é a tua, ó meu?

Mário Amorim Lopes, que pelos vistos dá aulas de microeconomia numa faculdade qualquer, escreveu a título de convidado um texto no “sentinela” na direita portuguesa, o “observador” que é uma peça política capaz de fazer parecer uns meninos alguns dos mais sanguinários fascistas. O facto de este Mário ser professor na Universidade do Porto e doutorando em economia da saúde prova que de facto, Alexandre Homem Cristo, do CDS, tinha razão quando escrevia que “temos maus professores”, pelos menos no que toca a este Mário Amorim Lopes. Mas pior, mostra que temos o ensino capturado pela doutrina dominante do neo-liberalismo mais bárbaro e ordinário.

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A Cova da Moura não caminha só

Costuma-se dizer que na Amadora há bairros em que a polícia não entra, mas não é verdade. Nesses bairros, o que não entra é a Constituição da República Portuguesa. É preciso dizê-lo claramente: a Cova da Moura é um bairro de trabalhadores. Gente que todas as manhãs desce a encosta íngreme de ruas labirínticas para ir levar os filhos à escola e depois, quando há trabalho, ir trabalhar. Quem conhece o Alto da Cova da Moura depressa aprende a admirar a criatividade, a alegria e a solidariedade desta comunidade que, desafiando a exclusão dos governos, a pobreza imposta pelo capitalismo e as condições de vida, tantas vezes miseráveis, consegue ser um exemplo de dignidade para Portugal.

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Juros da dívida, um vírus mortal.

Por cada dia que passa, incluindo sábados e domingos, o país paga cerca de 21 milhões de euros de juros da dívida. Religiosamente.

Portugal gasta cerca de 71 milhões de euros com complicações de saúde desenvolvidas nas fases finais da infecção crónica por HepC. O mesmo que gasta em 3 dias e meio com juros da dívida.

Morrem cerca de 1.117 pessoas por ano em Portugal devido a complicações com origem na infecção por HepC.

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PSD e CDS determinam “ring-fencing” ao Presidente da República

Antes mesmo de a Comissão de Inquérito realizar qualquer contacto com a Presidência da República, Cavaco Silva já anunciava que não divulgaria conteúdos sobre as conversas que teve com o então Presidente do BES, Ricardo Salgado. Que não tinha nada a acrescentar, que o conteúdo das audiências é privado, que tem de preservar o espaço de privacidade e a confiança de quem recorre àquelas audiências.

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Pela Ciência em Portugal

Num dia quando se discutiu o Sistema Nacional de Saúde e como este tem sido sistematicamente depauperado, sua rede reduzida com encerramentos, seus recursos humanos forçados a emigrar, com efeitos directos e dramáticos sobre a saúde dos Portugueses, quase parece mau tom referir uma outra área onde as políticas de austeridade (cabe até dizer de morte lenta) dos governos de direita tem tido assinaláveis efeitos. Quase. Estas políticas têm sido tão transversais, atacando até áreas predilectas da direita, como a segurança interna e a defesa, que é imperativo que não nos esqueçamos que não se trata de um mau ministro numa área, má organização ou gestão de um qualquer sistema, mas do culminar de políticas de vários governos da troika nacional de estrangular toda a esfera pública e atentar os interesses nacionais, e a Constituição da República e os direitos nela consagrados. Vem este texto a propósito do estado da Ciência em Portugal.

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Eles moem e matam

“Eu vou dar-lhe os números”. Foi desta forma que Paulo Macedo respondeu numa audição parlamentar, pedida pelo PCP, sobre o estado das urgências. O agendamento teve de ser potestativo para que Paulo Macedo se dignasse a ir ao Parlamento dar explicações aos deputados. De outro modo, continuaria calado, mudo, que é como eu o ouço quando vem com as frases feitas que ouvimos todos os dias do gangue de criminosos que nos governa. “Eu vou dar-lhe os números”, disse ele. Entretanto, as urgências continuam caóticas. Os tratamentos para o cancro em modo de espera e o medicamento para a hepatite C está a ser sonegado a cerca de 4.000 pessoas que dele necessitam para sobreviver.

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