Costuma-se dizer que na Amadora há bairros em que a polícia não entra, mas não é verdade. Nesses bairros, o que não entra é a Constituição da República Portuguesa. É preciso dizê-lo claramente: a Cova da Moura é um bairro de trabalhadores. Gente que todas as manhãs desce a encosta íngreme de ruas labirínticas para ir levar os filhos à escola e depois, quando há trabalho, ir trabalhar. Quem conhece o Alto da Cova da Moura depressa aprende a admirar a criatividade, a alegria e a solidariedade desta comunidade que, desafiando a exclusão dos governos, a pobreza imposta pelo capitalismo e as condições de vida, tantas vezes miseráveis, consegue ser um exemplo de dignidade para Portugal.
Sauditas e Wahhabitas – Mil e uma noites de hipocrisia e terror*

Os estado-unidenses têm uma forma curiosa de lidar com a morte. No velório, em vez do pranto e das assoadelas, escuta-se o álbum favorito do falecido e contam-se anedotas sobre a sua vida. E o cemitério, que dificilmente um português escolheria para um agradável piquenique, é, para o americano, apenas um relvado: sem cruzes tétricas nem largos lutos, nem nada de lúgubre até onde a vista alcança. E no entanto, nem os mais pronunciados matizes da cultura, nem os sempre complexos rendilhados da língua, explicam o singular critério de Barack Obama para a morte de outros chefes-de-estado.
Juros da dívida, um vírus mortal.
Por cada dia que passa, incluindo sábados e domingos, o país paga cerca de 21 milhões de euros de juros da dívida. Religiosamente.
Portugal gasta cerca de 71 milhões de euros com complicações de saúde desenvolvidas nas fases finais da infecção crónica por HepC. O mesmo que gasta em 3 dias e meio com juros da dívida.
Morrem cerca de 1.117 pessoas por ano em Portugal devido a complicações com origem na infecção por HepC.
PSD e CDS determinam “ring-fencing” ao Presidente da República
Antes mesmo de a Comissão de Inquérito realizar qualquer contacto com a Presidência da República, Cavaco Silva já anunciava que não divulgaria conteúdos sobre as conversas que teve com o então Presidente do BES, Ricardo Salgado. Que não tinha nada a acrescentar, que o conteúdo das audiências é privado, que tem de preservar o espaço de privacidade e a confiança de quem recorre àquelas audiências.
Pela Ciência em Portugal

Num dia quando se discutiu o Sistema Nacional de Saúde e como este tem sido sistematicamente depauperado, sua rede reduzida com encerramentos, seus recursos humanos forçados a emigrar, com efeitos directos e dramáticos sobre a saúde dos Portugueses, quase parece mau tom referir uma outra área onde as políticas de austeridade (cabe até dizer de morte lenta) dos governos de direita tem tido assinaláveis efeitos. Quase. Estas políticas têm sido tão transversais, atacando até áreas predilectas da direita, como a segurança interna e a defesa, que é imperativo que não nos esqueçamos que não se trata de um mau ministro numa área, má organização ou gestão de um qualquer sistema, mas do culminar de políticas de vários governos da troika nacional de estrangular toda a esfera pública e atentar os interesses nacionais, e a Constituição da República e os direitos nela consagrados. Vem este texto a propósito do estado da Ciência em Portugal.
Eles moem e matam
“Eu vou dar-lhe os números”. Foi desta forma que Paulo Macedo respondeu numa audição parlamentar, pedida pelo PCP, sobre o estado das urgências. O agendamento teve de ser potestativo para que Paulo Macedo se dignasse a ir ao Parlamento dar explicações aos deputados. De outro modo, continuaria calado, mudo, que é como eu o ouço quando vem com as frases feitas que ouvimos todos os dias do gangue de criminosos que nos governa. “Eu vou dar-lhe os números”, disse ele. Entretanto, as urgências continuam caóticas. Os tratamentos para o cancro em modo de espera e o medicamento para a hepatite C está a ser sonegado a cerca de 4.000 pessoas que dele necessitam para sobreviver.
Até os mortos vão ao nosso lado

Vi-te num canto, num dia de chuva em Janeiro. No meio de tanta gente, estavas tu, recolhido, perto de uma janela onde pudesses fumar. Fixava-te porque me intrigavas. Não sei bem porquê, mas sentia que tinha que te falar. Assim foi. Falaste-me de Génova, de música clássica, de punk, do teu ofício de leitor, de dentes e de cães.
Desde esse dia que falámos sempre e sobre tudo. Estavas sempre perto, tu e a tua máquina fotográfica. Em todas as lutas, lá estavas tu. Nunca deixaste de ser assertivo e agressivo quando não concordavas. Não deixavas nada por dizer. Detestavas os amigos que não respeitassem a solidão e que não te fizessem companhia.
Crispado Silva
O homem não era visto nem ouvido há meses, e agora que aparece, surge-nos crispado. Motivo? Indignado com as inusitadas mortes nas urgências? Indignado com a incompetência do governo na Justiça, na Educação? Nada disso. Alguém tocou, mais uma vez – malditos sejam – no pelos vistos muito aborrecido e incómodo tema da ligação de sua excelência ao grupo Espírito Santo. Isso é que é preocupante. Já não o víamos tão exaltado desde a sua associação à SLN e ao BPN do seu amigo Oliveira e Costa. O dito senhor enervou-se, fez triste figura aos microfones e câmaras dos jornalistas, empalideceu e tremeu o queixo, deu-lhe o verbo para a lamentável postura do costume.