Não é novidade para mim – já o tinha escrito algures – que a próxima grande batalha da direita portuguesa – que não resume aos partidos mas também e sobretudo aos interesses e corporativismos dominantes – consistirá, invariavelmente, na tentativa de derrube da Constituição da República Portuguesa. Como sabemos, para «suavizar» as pancadas, a direita especializou-se em atribuir designações falaciosas aos seus intentos mais macabros. Da mesma forma que, entre muitas outras coisas, o «ajustamento» nunca foi ajustamento nenhum, nesta questão em concreto também não é de «revisão» do texto constitucional que estamos aqui a falar. É mesmo de derrube, de destruição, de subversão, de completa capitulação de o que resta da democracia e da vontade do povo às leis «modernas» da finança, do economicismo e da ditadura do capital. E este “grande desígnio” é aliás uma questão de elementar lógica: se a Constituição foi, de forma muito particular nos últimos meses e anos, a grande salvaguarda e o último bastião da defesa daqueles que menos têm e menos podem – dos trabalhadores, dos reformados, dos pensionistas –, importa portanto eliminar essa «pedra no sapato» daqueles que, hoje como ontem, exploram, usam e abusam daqueles que, no fundo, à custa dessa exploração – cada vez maior e mais acentuada – lhes deram e dão o pão a ganhar.
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Trabalhar metade, receber mais ou menos metade e parir à vontade
Por esta hora deve chover demagogia pelos lados de S. Bento. Depois de semanas de audições sobre o tema da natalidade, eis-nos chegados ao objectivo central: a redução do tempo de trabalho, a redução salarial e a desvalorização do papel da mulher. Não?
Vejam então as iniciativas agendadas pelos vários partidos e depois analisem as agendadas por PSD e CDS-PP.
Vista grossa no Aleixo
A foto é antiga. Aqueles edifícios castanhos que se vêem na imagem, tirada a partir de Gaia, mostram o que era, antigamente, o Bairro do Aleixo. Bairro de má fama, mais ou menos como o comum mortal vê a Comporta para os ricos, estão a ver mais ou menos a dimensão da coisa? Hoje restam três torres, se não me falha a memória do fim-de-semana.
O Inferno é a barca e as suas timoneiras
Fazer um programa só com mulheres para afirmar as mulheres na política é uma ideia interessante. Mas depois faz-se um programa com a) o Nilton, b) aquelas convidadas. Faz-me, por um lado, ter vergonha alheia não por achar que serão elas a bitola com que se vai avaliar o papel da mulher na política (não me parece, ou pelo menos espero que não seja esse o efeito) mas porque na discussão dos temas tudo se faz com uma displicência, ignorância e desconhecimento que não faz sentido nenhum. Por outro lado preocupa-me, porque, sendo a ignorância uma atrevida, a verdade é que quando as afirmações passam sem que sejam contraditadas, transformam-se em verdades.
E se Portugal fosse governado como Loures?
Quem cresceu nos dormitórios suburbanos de Lisboa pode separar as memórias da sua cidade na incursão nos prédios que estão agora onde antes era só campo. Lentamente, como uma enxaqueca histórica, a especulação imobiliária apoderou-se das cidades, transformou-se nas cidades. Acompanhando a retirada das funções sociais do Estado, o poder autárquico timonado pelo PS e PSD reduziu-se à insignificância votada, não pelos eleitores, mas pelos sucessivos governos: a sina de estruturas democraticamente opacas que seguem mecanicamente procedimentos formais, que servem para cobrar taxas e, no compasso das eleições, tapar uns buracos.
Guterres e a Constituição
Os “Frente a Frente” das 21h30 na SIC Notícias são frequentemente espectáculos tristes mas pedagógicos e reveladores da pobreza de ideias e de convicções de boa parte dos seus protagonistas. Desconfio que muito do que dizem não é certamente o que pensam, embora pensem que o devem dizer. Outra boa parte do que defendem resulta (só pode…) de pura ignorância ou, pior, consciente vontade de contornar o óbvio através de uma pirueta e meia seguida de mortal encarpado, verdadeiras olímpiadas do contorcionismo político.
Ser técnico de manutenção de aeronaves no país da austeridade, por João Silva
Nos hangares da TAP o ambiente é de apatia e descontentamento. Os trabalhadores cumprem as suas tarefas com o rigor de sempre (que ainda hoje garante que seja a terceira companhia aérea mais segura de toda a Europa), mas sem o empenho de outros tempos. À medida que a privatização paira sobre nós, a força e a união de todos aqueles que lutaram para defender esta empresa parece esbater-se, como se tudo o que foi feito ao longo destes anos tivesse sido em vão.
Achas que valia alguma coisa dar a vida pelo país?
«J. – Achas que valia alguma coisa dar a vida pelo país?
L. – Hipoteticamente?
J. – Não, não, agora.
L. – Queres imolar-te ou assim?
J. – Ou uma greve de fome.
L. – Não, isso é parvo. Faz mais sentido continuares a fazer o que fazes. Vejo mais hipótese de transformação.
J. – Mas eu não me reconheço nisto. Não consigo. Não me reconheço nestas histórias. Não se pode viver assim».
Se isto fosse uma série ou um filme, agora existiria um plano de corte e voltávamos atrás na conversa. Este seria o teaser do episódio e agora o narrador e as protagonistas demonstravam como se chegou até aqui. Mas neste caso seria impossível porque levaria anos a explicar.