No passado domingo comprei, creio que pela última vez nos próximos anos, a edição em papel do jornal Público. Depois de a ter folheado por três ou quatro vezes não encontrei referência alguma às manifestações que a CGTP-IN organizou em dezoito capitais de distrito. A opção de não incluir qualquer notícia sobre as acções de luta da CGTP-IN é em si mesma uma expressão da forma como o Público olha hoje o país e o mundo que pretende analisar, quer sob a forma de notías, quer sob a forma de artigos de opinião.
Ser médico no país da austeridade, por Cristiano Ribeiro
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça. Iniciamos hoje a série “Ser no país da austeridade”.
A Cobertura de Cavaco
Cavaco Silva decidiu vir a terreiro fazer a cobertura e o branqueamento da fuga declarada de Passos Coelho à Segurança Social. Pelos vistos, sua equívoca excelência já terá tomado conhecimento dos contornos do incumprimento e já terá inclusive aceitado a respectiva justificação. Reagiu como seria expectável. Fê-lo em nome do PSD. Aliás, corrijo, Cavaco conseguiu ir muito mais longe do que aquilo que o próprio PSD alguma vez se atreveria a ir em defesa da sua honra. Ao colocar uma fuga descarada e assumida aos impostos no plano da disputa meramente eleitoral, ao reduzir dessa forma um assunto de enorme gravidade de uma alta figura do estado ao nível da básica troca de galhardetes entre candidatos, ou até ao nível da colagem de cartazes e da distribuição de panfletos, Cavaco dá ele próprio, com parcialidade e total comprometimento, o tiro de partida na campanha do PSD às próximas legislativas.
De Mossul à Babilónia: o triunfo da ignorância e da barbárie.
Totalitarismo e ignorância andam quase sempre de mãos dadas. Quando a estes se junta o mais completo e absoluto desprezo pela história de outros povos e de outras territórios que não são compreendidos para lá dos recursos naturais que guardam, a coisa torna-se dramática, quando não criminosa.
94 anos: a nossa História é a luta de um povo
No assento do comboio, repousa um jornal que aparenta não ter dono. Nele tropeçam os olhos uma e duas vezes, na viagem entre a janela e os outros passageiros. Bem podia ser o Metro ou mesmo o Destak, mas a diagramação que inunda em letras a folha larga, trai a gratuitidade tabloide. Que jornal este, que é livre sem ser grátis e é honesto sem ser imparcial? Que se deixa no comboio sem nunca o abandonar e, ainda assim, é de todos tendo afinal um dono?
Nada disto poderia saber o dono dos olhos que cobiçam o periódico. Agarrado e levantado, desdobrado e sacudido, deixa à vista a foice e o martelo cruzados sob a estrela apontando um vértice a cada um dos cinco continentes. “94.º aniversário” lêem os olhos “do Partido Comunista Português”.
Diabética, invisual e com menos 70 euros no fim do mês
Vamos chamar-lhe Amélia. Eu gosto do nome e, nestes casos, convém, para já, salvaguardar alguma privacidade. Trabalhou e, como tal, chega agora à idade da reforma. Com a vantagem de nunca se ter esquecido de pagar qualquer contribuição à Segurança Social. O certo é que, há quase 10 anos vítima da diabetes, acabou a receber uma pensão de invalidez por ter ficado cega. Recebia a fortuna de 567 euros mensais, incluindo já os 100 euros de complemento de dependência. Agora, que continua dependente mas passa à condição de reformada, irá receber 497 euros, deixando de ser inválida, segundo a Segurança Social, para passar a ser só pensionista (deixando de ser pensionista por invalidez para ser pensionista por velhice).
– Ó André, já chega de falar na barbearia, não?
A Figaro’s continua aberta, os ginásios e spas só para mulheres também. A primeira, nas condições em que está aberta, devia fechar, os segundos, devem continuar abertos. E porquê? Já muita gente explicou, mas muita gente continua a não querer entender. Repito resumidamente: a Figaro’s impede a entrada e/ou permanência física de mulheres no seu estabelecimento, os ginásios e spas exclusivos para mulheres, simplesmente não prestam serviços a homens, mas não os impedem de estar no estabelecimento.
A crise da dívida
Em 1999, quando Passos Coelho iniciava a sua caminhada de ignorância em relação aos pagamentos à Segurança Social, eu estava a um ano de entrar na redacção de um jornal para o meu primeiro trabalho a sério, depois de passar pelos transitários – era praxe, por aqui – e por outras aventuras relacionadas com o mundo do futebol. Em Outubro de 2000 cheguei ao sexto andar do entretanto assassinado O Comércio do Porto e apaixonei-me por aquilo tudo. Tive de “colectar-me” e comecei a passar recibos verdes. Ao fim de um ano, acabou a isenção e era preciso começar a pagar a à Segurança Social.